O EVANGELHO E A CULTURA

07/05/2013 00:50

 

O EVANGELHO E A CULTURA
 
 
Relatório da reunião de Consulta
realizada em Willowbank, Somerset Bridge, Bermudas,
entre 06 e 13 de janeiro de 1978.
Patrocinada pelo Grupo de Teologia e Educação de Lausanne
 
 
ABU Editora e Visão Mundial.
 
Traduzido do original em inglês
THE WILLOWBANK REPORT
Copyright (c) 1978 Comissão de Lausanne para a 
Evangelização Mundial, 186 Kennington Park Road,
Londres SE11 4BT, Inglaterra
 
1ªEdição em português – 1983
 
Publicado conjuntamente por
ABU Editora S-C e Visão Mundial
Com a autorização da Comissão de Lausanne
Todos os direitos reservados
 
Tradução de José Gabriel Said
 
 
Digitalização: FB
 
 
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Sumário
Prefácio Geral 4
Introdução 5
1. Base Bíblica da Cultura 6
2. Definição de Cultura 7
3. Cultura na Revelação Bíblica 9
4. Compreendendo a Palavra de deus Hoje 14
5. Conteúdo e Comunicação do Evangelho 17
6. Procura-se: Mensageiros Humildes do Evangelho! 22
7. Conversão e Cultura 28
8. Igreja e Cultura 34
9. Cultura, Ética Cristã e Estilo de Vida 45
Conclusão 49
 
Prefácio Geral
O magno e frutescente Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado em 1974 em Lausanne, Suíça, não foi somente um evento marcante na vida de 4000 congressistas vindos de muitos países. Ele desencadeou um movimento de evangelização de grupos humanos concretos que antes não contavam com a presença cristã significativa, como também deu impulso a uma reflexão teológica sobre assuntos relacionados com a evangelização do mundo. Na verdade, o movimento de Lausanne é um interessante experimento de convívio entre peritos em estratégia missionária (os práticos) e peritos em teologia (os teóricos); convívio aliás, por vezes tenso, mas frutífero e criativo.
O Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83) houve por bem tornar mais explícito o vínculo espiritual, teológico e missiológico que o liga ao movimento de Lausanne, através da publicação de alguns textos básicos que surgiram sob os auspícios da Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial. Estes textos, de leitura preparatória para o CBE-83 foram produzidos por grupos de trabalho com ampla participação de crentes do terceiro mundo, inclusive de brasileiros, ainda que alguns tenham sido comentados por irmãos do Hemisfério Norte. Mas a relevância destes textos transcende o CBE-83, devendo enriquecer as igrejas evangélicas do Brasil tanto em sua jornada de evangelização como em sua caminhada de reflexão sobre esta tarefa prioritária da missão integral do Corpo de Cristo. Que eles produzam entre nós estímulos para uma evangelização, urgente e eficaz.
Resta apenas dizer que, enquanto o CBE-83 não endossa, necessariamente, todos os pensamentos expostos nesta série de Lausanne, recomenda a sua leitura e estudo aos líderes e ao povo evangélico brasileiro.
Pr. Manfred Frellert
Presidente do Congresso Brasileiro de Evangelização
 
 
Introdução
O processo de comunicação do evangelho não pode ser isolado da cultura humana de que procede, nem daquela em que deve ser proclamado. Esse fato constitui uma das preocupações do Congresso de Lausanne sobre Evangelização Mundial, em julho de 1974. Assim, o Grupo de Teologia e Educação da Comissão de Lausanne fixou uma reunião de consulta sobre o assunto para janeiro de 1978. Essa reunião congregou um grupo de 33 pessoas: teólogos, antropólogos, lingüistas, missionários e pastores de seis continentes. Reuniram-se para examinar a questão “Evangelho e Cultura”. A reunião foi co-patrocinada pelo Grupo de Trabalho Estratégico da Comissão de Lausanne, e tinha em vista quatro objetivos:
1. desenvolver nossa compreensão da inter-relação entre evangelho e cultura, com especial referência à revelação de Deus, à interpretação e comunicação da mesma por nossa parte, e à resposta dos ouvintes em sua conversão, em suas igrejas e no seu estilo de vida;
2. refletir criticamente sobre as implicações da comunicação transcultural do evangelho;
3. identificar os instrumentos indispensáveis a uma comunicação mais adequada do evangelho;
4. compartilhar os frutos da consulta com líderes cristãos na Igreja e no trabalho missionário.
Este relatório reflete o conteúdo de 17 trabalhos com circulação antecipada, o resumo dos mesmos e a reação que suscitaram durante a Consulta, e numerosos pontos de vista expressos em plenário e nas discussões em grupo.
Nosso programa de seis dias foi muito intenso, o que nos obrigou a um redobrado ritmo de trabalho. Em conseqüência não puderam ser exploradas as questões básicas de metodologia sobre os pressupostos e procedimentos da teologia e das ciências sociais, bem com a maneira adequada de relacioná-las. E houve momentos em que nossas discussões refletiram claramente esse fato. Além disso, muitas das questões levantadas deixaram de ser respondidas, e muitos debates particulares tiveram sua conclusão antecipada no desenrolar dos trabalhos. Estamos conscientes, portanto, que o exposto aqui apresenta um caráter provisório. Poderá vir a ser aguçado e aprofundado, em diversos aspectos, em face de trabalhos futuros. Utilizamos numerosas generalizações, o que mostra a necessidade da análise de um maior número de casos concretos, a fim de se constatar como estas generalizações se relacionam com situações específicas.
Antes de se concluir a Consulta, dedicamo-nos à elaboração do relatório e de sua redação final. O documento final é um Relatório e não um Manifesto ou uma Declaração; vale dizer que nenhum de nós o assinou. Distribuímo-lo no entanto como resumo do que realizamos em Willowbank, e o recomendamos a nossos irmãos cristãos em todo o mundo para estudo e ação compatível.
1. Base Bíblica da Cultura
“Uma vez que o homem é criatura de Deus, parte da sua cultura é rica em beleza e bondade. Pelo fato de o homem ter caído, toda a sua cultura (usos e costumes) está manchada pelo pecado e parte dela é de inspiração demoníaca” (Pacto de Lausanne, §10).
Deus criou o ser humano macho e fêmea, à sua própria imagem dotando-o de faculdades distintas e peculiares: racionalidade, sociabilidade, moralidade, criatividade e espiritualidade. Ele também lhe ordenou que tivesse filhos, ocupasse a Terra e a dominasse (Gn 1:26-28). Esses mandamentos divinos são a origem da cultura humana. O fundamental à cultura é o controle da natureza (isto é, de nosso meio ambiente) e o desenvolvimento de formas de organização social. À medida que usamos nosso poder criativo para obedecer aos mandamentos de Deus, glorificamo-lo, servimos a outros e cumprimos parte importante de nosso destino na Terra.
Agora, entretanto, estamos caídos. Todo nosso trabalho é feito com suor e luta (Gm 3:17-19) e se desfigura pelo egoísmo. Nenhuma das nossas culturas é perfeita em verdade, beleza e bondade. No âmago de toda cultura (quer seja esse cerne uma visão religiosa ou mundana) há um elemento de egocentrismo, de auto-adoração do homem. Razão pela qual não se pode colocar uma cultura sob o senhorio de Cristo sem uma radical mudança de lealdade.
Em que pese tudo isso, permanece a afirmação de que fomos feitos à imagem de Deus (Gm 9:6; Tg 3:9), embora a semelhança divina tenha sido distorcida pelo pecado. Deus espera, ainda assim, que exerçamos a mordomia da Terra e de suas criaturas (Gn 9:1-3, 7), e eu sua graça universal torna possível que todos possam ser criativos, engenhosos e bem-sucedidos em seus empreendimentos. Embora Gênesis 3 registre a queda da humanidade, e Gênesis 4 o assassínio de Abel pelas mãos de Caim,s ao os descendentes deste que são apresentados como inovadores da cultura, erguendo cidades, criando animais para seu sustento, produzindo instrumentos musicais e ferramentas de metal (Gn 4:17-22).
Muitos de nós, cristãos evangélicos, fomos bastante pessimistas no passado, em relação à cultura. Não nos esquecemos de nossa condição de caídos e perdidos, que requer salvação em Cristo. Contudo, queremos iniciar este Relatório com a afirmação positiva da dignidade e dos sucessos das realizações culturais humanas. Onde quer que o ser humano desenvolva sua organização social, arte e ciência, agricultura e tecnologia, sua criatividade reflete a de seu Criador.
2. Definição de Cultura
A palavra “cultura” não pode ser definida facilmente. No sentido mais amplo, significa simplesmente os padrões seguidos por um determinado grupo. Para que possa haver algum tipo de vida em comum e um certo grau de ação coletiva, tem de existir um consenso, seja oral ou escrito, em relação a um grande número de assuntos. Mas o termo “cultura” não se utiliza geralmente a não ser que se trate de uma comunidade maior que a família, seja esta restrita ou mais ampla.
A cultura implica uma certa medida de homogeneidade. Mas se a unidade é maior que o clã ou a tribo pequena, a cultura correspondente há de compreender uma quantidade de subculturas, e de subculturas de subculturas, entre as quais pode haver uma grande variedade e diversidade. Se as variações ultrapassam determinado limite, surge uma contracultura, e este processo pode se tornar algo destrutivo.
A cultura une várias gerações durante uma época. É recebida do passado, mas não por um processo de herança natural. Cada geração tem de aprendê-la por si mesma. Esta aprendizagem acontece em linhas gerais por um processo de absorção do meio social, especialmente no lar. Em muitas sociedade certos elementos culturais se comunicam diretamente por meio dos ritos de iniciação, e por meio de muitas outras formas de instrução deliberada. Geralmente, ação em conformidade com a cultura se realiza no nível subconsciente.
Isto significa que a cultura compreende todos os aspectos da vida humana.
No centro há uma cosmovisão, ou seja, uma compreensão geral do caráter do universo e do lugar que se ocupa neste universo. Esta compreensão pode ser “religiosa” (relativa a Deus ou a deuses e espíritos,e a nossa relação com eles), ou pode expressar um conceito “secular” da realidade, como na sociedade marxista.
Desta cosmovisão básica surgem tanto os padrões de julgamento ou valores (sobre o que é bom no sentido de desejável , sobre o que é aceitável de acordo com a vontade geral da comunidade e sobre os conceitos contrários), como também as normas de conduta (concernente às relações entre os indivíduos, os sexos e as gerações, com a comunidade e com aqueles que estão de fora dela).
A cultura está intimamente ligada à linguagem e se expressa em provérbios, mitos, contos populares e diversas formas de arte, que constituem parte do equipamento mental de todos os membros do grupo. A cultura governa as ações que se desenvolvem em comunidade: ações de culto e de bem-estar geral; leis e a administração da justiça; atividades sociais como danças e jogos; unidades de ação menores como clubes, sociedades e associações para uma imensa variedade de fins comuns.
As culturas jamais são estáticas, mas estão em contínuo processo de mudança. Mas esta mudança deve ser um processo gradual que acontece dentro das normas da sociedade; senão, ocorre uma ruptura na cultura. A maior sanção que se pode impor a um rebelde é a exclusão da comunidade da sua definição cultural e social.
Homens e mulheres precisam de uma existência unificada. Sua participação em uma cultura é um dos fatores que lhes proporciona o sentido de pertencer a algo. A cultura dá um sentido de segurança, de identidade, de dignidade, de ser parte de um todo maior e de partilhar a vida de gerações anteriores e também das expectativas da sociedade com respeito a seu próprio futuro.
Na Bíblia podemos encontrar pontos chaves para a compreensão da cultura humana na tríplice dimensão de povo, terra e história, nos quais o Antigo Testamento concentra sua atenção. O étnico, o territorial e o histórico (quem somos, donde somos e donde viemos) aparecem ali com a tríplice fonte das formas da vida econômica, ecológica, social e artística de Israel, das formas d trabalho e produção e daí de riqueza e bem-estar. Este modelo proporciona uma perspectiva para a interpretação de todas as culturas.
Talvez possamos tentar condensar estes diversos significados da seguinte maneira: a cultura é um sistema integrado de crenças (sobre Deus, a realidade e o significado da vida), de valores (sobre o que é verdadeiro, bom, bonito e normativo), de costumes (como nos comportar, como nos relacionar com o s outros, falar, orar, vestir, trabalhar, jogar, fazer comércio, comer, trabalhar na lavoura, etc), e de instituições que expressam estas crenças, valores e costumes (governo, tribunais, templos ou igrejas, família, escolas, hospitais, fábricas, lojas, sindicatos, clubes etc.), que unem a sociedade e lhe proporcionam um sentido de identidade, de dignidade de segurança e de continuidade.
3. Cultura na Revelação Bíblica
A auto-revelação pessoal de Deus na Bíblia foi dada em termos da própria cultura do ouvinte. Assim, nos perguntamos que luz isso projeta em nossa tarefa atual de comunicação transcultural.
Os autores bíblicos usaram criticamente todo o material cultural que dispunham, a fim de expressar sua mensagem. Por exemplo, o Velho Testamento faz várias referências ao monstro marinho da Babilônia – o leviatã – enquanto que a forma da “aliança” de Deus com seu povo lembra o antigo “tratado” do suserano hitita com seus vassalos. Aqueles autores também fizeram uso das imagens conceituais do universo “de três níveis”, embora ainda não afirmassem com isso uma cosmologia pré-copérnica. Ainda fazemos algo semelhante quando falamos do sol que “nasce” e do sol que “se põe”.
Semelhantemente, a linguagem e as formas de pensamento neotestamentárias estão arraigadas tanto na cultura judaica como na helenística, e tudo indica que Paulo fez uso do vocabulário filosófico grego. No entanto, o processo pelo qual os autores bíblicos se utilizaram de palavras e imagens de seu meio cultural, usando-as criativamente, estava sob controle do Espírito Santo, permitindo-lhes depurá-las de implicações falsas ou nocivas, transformando-as, assim, em veículos da verdade e bondade.
Esses fatos indubitáveis levantam uma série de questões com as quais temos lutado. Mencionamos cinco:
a. A natureza da inspiração bíblica
Será que o uso que os autores bíblicos fazem de palavras e idéias extraídas de sua própria cultura é incompatível com a inspiração divina? Não. Já fizemos notar os diferentes gêneros literários presentes na Escritura, e as diferentes formas do processo de inspiração que implicam. Por exemplo, a forma da obra dos profetas, que recebiam visões e palavras do Senhor, é bastante distinta da utilizada nos relatos de historiadores e epistológrafos. No entanto, foi o mesmo Espírito que inspirou a todos. Deus usou o conhecimento, a experiência e a bagagem cultural desses autores (embora sua revelação constantemente ultrapassasse tais dados), e em cada caso o resultado foi o mesmo, ou seja, a palavra de Deus através das palavras humanas.
b. Forma e significado
Toda comunicação tem ao mesmo tempo um significado (o que desejamos dizer) e uma forma (a maneira como o fazemos). Ambos – forma e significado – são inseparáveis, tanto na Bíblia como em outras formas de pronunciamentos. Como, então, traduzir a mensagem de uma língua para outra?
Uma tradução literal da forma (“correspondência formal”) pode ocultar ou torcer o significado. Em tais casos, a solução é procurar na outra língua uma expressão que produza no ouvinte o mesmo impacto produzido pela expressão original. Isso pode acarretar a mudança da forma a fim de que se preserve o significado original. A isso chamamos “equivalência dinâmica”. Consideremos, por exemplo,  a tradução ERAB de Rm 1:17, a qual afirma que “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé”. Essa é uma tradução palavra-por-palavra do original grego, ou seja, uma tradução à base da “correspondência formal”. Mas ela deixa obscuro o significado das expressões gregas “justiça” e “de fé em fé”. Uma tradução como a BLH – “o Evangelho mostra que Deus nos aceita por meio da fé, do começo ao fim” – abandona o princípio da correspondência linear entre o grego e o português, mas exprime o sentido da frase original mais adequadamente. A tentativa de produzir uma tradução à base desse processo de “equivalência dinâmica” pode bem levar o tradutor a uma compreensão mais profunda da Escritura e tornar o texto mais significativo a pessoas de outra língua.
Algumas formas bíblicas (palavras, imagens, metáforas), entretanto, deveriam ser mantidas, pois são símbolos importantes decorrentes da Escritura (p.ex. cruz, cordeiro, taça). Enquanto mantêm a forma, os tradutores esforçar-se-iam por reproduzir o sentido. Por exemplo, em Marcos 14:36 a BLH traduz: “Afasta de mim este cálice de sofrimento”. A forma (i.e. a imagem do “cálice”) é mantida, ao passo que a expressão “de sofrimento” é acrescida, a fim de dar maior clareza ao significado.
Escrevendo em grego, os autores neotestamentários usavam palavras que já tinham uma longa história no mundo secular mas revestiam-se de significado cristão, como quando João se referiu a Jesus como “o Logos”. Esse era um procedimento perigoso, pois “logos” tinha uma larga variedade de significados na literatura e na filosofia gregas, e a partir daí idéias não-cristãs sem dúvida se associavam à palavra. Assim João teve que fixar o título dentro de um contexto doutrinário, afirmando que o Logos era no início, era com Deus, era Deus era o agente da criação, era a luz e a vida dos homens, e se tornou um ser humano (Jô 1:1-14). Do mesmo modo, alguns cristãos da Índia assumiram o risco de tomar emprestada ao sânscrito a palavra “avatar” (descendente), usada no Hinduísmo para traduzir as assim chamadas “encarnações” de Vishnu, e aplicaram-na com uma cuidadosa ressalva explicativa, à única encarnação que realmente ocorreu, a de Deus em Jesus Cristo. Outros, entretanto, recusam-se a fazer o mesmo, sob a alegação de que nenhuma salvaguarda é capaz de impedir adequadamente o desvio de interpretação.
c. A natureza normativa da Escritura
O Pacto de Lausanne declara que a Escritura é “isenta de qualquer erro em tudo quanto afirma” (§2º). Isso coloca em nosso ombros a séria tarefa exegética de discernir com rigor o que a Escritura afirma. O significado essencial da mensagem bíblica deve, a qualquer custo, ser mantido. Embora se possam substituir algumas das formas originais utilizadas para produzir esse sentido, em favor da comunicação transcultural, achamos que elas também têm um aspecto normativo. Pois foi o próprio Deus quem as escolhei como veículos inteiramente apropriados de sua revelação. Assim é preciso verificar a fidelidade de toda nova formulação ou explicação para cada geração ou cultura, remetendo-a sempre ao original.
d. O condicionamento cultural da Escritura
Não nos tem sido possível dedicar tanto tempo como gostaríamos ao problema do condicionamento cultural da Escritura. Estamos de acordo em que alguns mandamentos bíblicos (p.ex., o uso de véu em público pelas mulheres e lavar os pés uns dos outros) se referem a costumes já obsoletos em muitas partes do mundo. Em face de tais textos, acreditamos que a reação correta não é nem uma literal obediência servil, nem uma desconsideração irresponsável do assunto, mas sim antes de tudo, um discernimento crítico do significado íntimo do texto e, depois, a tradução do mesmo em termos de nossa própria cultura. Por exemplo, o significado fundamental daquele mandamento – lavar os pés uns dos outros – é que o mútuo amor deve expressar-se em serviço humilde. Assim é que, em algumas culturas, podemos limpar, ao invés dos pés, os sapatos. Está claro que o propósito de uma “transposição cultural” como essa não é evitar a obediência mais, ao contrário, torná-la atual e autêntica.
A questão tão discutida do status da mulher não foi debatida na Consulta. Mas reconhecemos a necessidade de buscar uma compreensão que, integramente procure fazer justiça a toda a doutrina bíblica e que encare as relações entre o homem e a mulher como sendo de um lado radicadas na criação e, ao mesmo tempo, maravilhosamente transformadas pela nova criação que Jesus introduziu.
e. A obra contínua do Espírito Santo
Será que nossa ênfase na finalidade e no caráter normativo da Escritura significa estarmos pensando que o Espírito Santo já parou de operar? Não, certamente que não. Mas a natureza de seu ministério doutrinário mudou. Acreditamos que sua obra de “inspiração” já foi concluída, no sentido de que o cânone bíblico está encerrado, mas acreditamos também que sua obra de “iluminação” continua em toda conversão (p.ex., 2Co 4:6) e na vida do cristão e da igreja. De maneira que precisamos orar constantemente para que ele ilumine os olhos de nossos corações, fazendo com que conheçamos a inteireza do propósito de Deus para nós (Ef 1:17ss) e para que em vez de ter medo, tenhamos coragem de tomar decisões e empreender novas tarefas.
Percebemos que a nossa experiência do ministério do Espírito Santo em revelar a aplicação da verdade de Deus à vida pessoal e eclesiástica é, geralmente, menos vívida do que deveria ser. Nesse aspecto todos nós precisamos de mais abertura e mais sensibilidade.
Tópicos para Discussão
1. Os mandamentos de Gn 1:26-28 são algumas vezes chamados de “mandamento cultural” legado por Deus á humanidade. Com que grau de responsabilidade esse mandato está sendo cumprido hoje em dia?
2. À luz da definição de cultura da Seção 2, quais são os principais elementos distintivos de sua própria cultura?
3. Se você conhece duas línguas, componha uma frase numa delas e depois procure uma “equivalência dinâmica” na outra língua.
4. Dê outros exemplos de “transposição cultural” (ver 3d) que preservem o “significado íntimo” do texto bíblico, embora trazendo-o para a nossa própria cultura.
 
4. Compreendendo a Palavra de deus Hoje
O fator cultural está presente não só na auto-revelação de Deus na Escritura, como também em como a interpretamos. Vejamos agora essa questão. Todos os cristãos estão interessados em compreender a palavra de Deus, mas há diferentes maneiras de tentar fazê-lo.
a. Abordagens tradicionais
O mais comum é ir direto às palavras do texto bíblico sem atentar para a diferença entre o contexto cultural do autor e do leitor. Este lê o texto como se tivesse sido escrito em sua própria língua, cultura e tempo.
Reconhecemos que em boa parte a Escritura pode ser lida e compreendida desta maneira, sobretudo se a tradução for boa. Pois Deus destinou sua palavra à gente comum. Não se pode considerá-la privilégio de eruditos. As verdades centrais da salvação são simples para que todos as percebam. A Escritura é “útil para ensinar a verdade, repreender o erro, corrigir as faltas, e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3:16, CLH). E o Espírito Santo nos foi dado para que aprendêssemos com ele.
A restrição que se pode fazer a essa abordagem “popular”, entretanto, é que ela não procura compreender primeiro o texto em sua situação original, correndo o risco de perder de vista o significado verdadeiro que Deus pretende para nós, estando sujeita, portanto, a substituí-lo por outro.
Uma segunda abordagem considera com seriedade o contexto cultural e histórico original. Também procura desvendar o sentido do texto na língua original, e a maneira como ele se relaciona com o resto da Escritura. Tudo isso traduz uma disciplina essencial, pois Deus proferiu sua palavra a um povo particular, num contexto e tempo particulares. Na mesma medida em que examinarmos com profundidade tais assuntos, crescera nossa compreensão da mensagem de Deus.
O erro dessa abordagem “histórica”, entretanto, é que ela negligencia o que a Escritura possa estar dizendo ao leitor contemporâneo. Ela se fixa no sentido da Bíblia para o tempo e a cultura em que foi escrita. Está sujeita a analisar o texto sem aplicá-lo, e a fornecer conhecimento acadêmico sem obediência. O intérprete talvez tenda a exagerar a possibilidade de uma completa objetividade, ignorando seus próprios pressupostos culturais.
b. A abordagem contextual
Uma terceira abordagem combina os elementos positivos tanto da abordagem “popular” como da “histórica”. Desta vem-lhe a necessidade de estudar o contexto e língua originais e, da “popular” a necessidade de ouvir a palavra de Deus e obedecer a ela. Porei, essa terceira abordagem vai mais longe. Ela leva a sério o contexto cultural dos leitores contemporâneos, bem como o do texto bíblico e reconhece que é preciso desenvolver um diálogo entre ambos.
É a necessidade desse jogo dinâmico entre o texto e os intérpretes que desejamos enfatizar. Os leitores de hoje não podem chegar ao texto numa espécie de vácuo pessoal, nem deveriam tentar fazê-lo. Ao invés disso, deveriam aproximar-se conscientes das preocupações hão de influir nas questões lançadas às Escrituras. O que voltará, entretanto, não serão só respostas, e sim mais questões. Ao dirigirmo-nos à Escritura, ela também se dirige a nós. Descobrimos que nossos pressupostos culturalmente condicionados estão sendo questionados, e nossas perguntas corrigidas. Na verdade, o que acontece é que somos impelidos a reformular nossas questões anteriores e a formular novas perguntas. E assim a interação viva tem continuidade.
Através desse processo, aprofundamos nosso conhecimento de Deus e nosso compromisso com a sua vontade. Quanto mais o conhecemos, maior se torna nossa responsabilidade de obedecer-lhe em nossas própria situação e quanto mais obedientes somos, mais ele se revela a nós.
Esse constante crescimento em conhecimento, amor e obediência, é o propósito e benefício da abordagem “contextual”. Fora do contexto em que sua palavra foi originalmente proferida, ouvimos Deus falar conosco em nosso próprio contexto. É uma experiência transformadora. Esse processo é uma espécie de espiral ascendente em que a Escritura permanece sempre central e normativa.
c. A comunidade do aprendizado
Queremos salientar que a tarefa de compreender as Escrituras pertence não só a indivíduos, mas a toda a comunidade cristã, vista como uma comunidade histórica e contemporânea.
Há muitas maneiras pelas quais a igreja local ou regional pode vir a discernir hoje a vontade de Deus em sua própria cultura. Cristo ainda indica pastores e professores em sua igreja. E em resposta a orações cheias de expectativa, ele fala com seu povo, especialmente através da pregação de sua palavra no contexto da adoração. Além disso, há lugar para ensinarmos e aconselharmos uns aos outros (Cl 3:16), tanto em estudos bíblicos em grupo quanto na consulta a igrejas irmãs. É necessário também ouvir, silenciosamente a voz de Deus nas Escrituras, o que é um elemento indispensável na vida cristã daquele que crê.
A igreja é também uma comunidade histórica. Do passado recebeu uma rica herança de teologia, liturgia e devoção cristãs. Nenhum grupo pode negligenciar essa herança sem se arriscar a um empobrecimento espiritual. Ao mesmo tempo, essa tradição não pode se recebida de maneira acrítica, quer venha ela na forma de um conjunto de características denominacionais, ou de outra forma qualquer. A tradição precisa ser testada pela Escritura que ela alega expor. Tampouco deve ser imposta a qualquer igreja. O que é preciso é torná-la disponível aos que se utilizam dela como um recurso valioso como contrapeso ao espírito de independência e como vínculo com a igreja universal.
Assim o Espírito Santo instrui seu povo através de uma variedade de mestres tanto do passado como do presente. Precisamos uns dos outros. Só “com todos os santos” é que podemos começar a compreender as dimensões plenas do amor de Deus (Ef 3:18,19). O Espírito “ilumina a mente do povo de Deus, em todos os meios culturais, para receberem a sua verdade (i.e. a verdade da Escritura) em primeira mão, por si mesmos, e assim revela a toda a Igreja mais e mais da multiforme sabedoria de Deus” (Pacto de Lausanne, §2ª, fazendo eco a Efésios 3:10).
d. Os silêncios da Escritura
Consideramos também o problema dos silêncios das Escrituras, isto é, aquelas áreas de doutrina e ética sobre as quais a Bíblia nada tem de explícito a dizer. Escrita na antiga tradição judaica e Greco-romana, a Escritura não se dirige diretamente, por exemplo ao hinduísmo, ao budismo e ao islão de hoje, nem à teoria sócio-econômica marxista ou à tecnologia moderna. Não obstante, acreditamos que é justo a igreja, guiada pelo Espírito Santo, procurar nas Escrituras precedentes e princípios que a capacitem a desenvolver a mente do Senhor Jesus, e assim ter condições de tomar decisões autenticamente cristãs. Esse processo continua de maneira ainda mais frutífera dentro da comunidade cristã quando esta adora verdadeiramente a Deus e se empenha ativamente em obedecê-lo no mundo. Repetimos que a obediência cristã é tanto um prelúdio à compreensão co¬mo uma conseqüência dela.
Tópicos para Discussão
1. Você pode se lembrar se foi induzido em erro por qualquer uma das duas "abordagens tradicionais" da leitura bíblica?
2. Escolha um texto bem conhecido, como Mateus 6: 24-34 (angús¬tia e ambição) ou Lucas 10: 25-38 (o Bom Samaritano), e use a abordagem contextual para estudá-lo. Dialogue com o texto, interrogando-o e deixando que ele o interrogue. Anote as etapas da interação.
3. Leia as Seções 3e e 4c, e então discuta maneiras práticas de bus¬car a orientação do Espírito Santo hoje.
5. Conteúdo e Comunicação do Evangelho
Tendo meditado como Deus nos comunica o evangelho através da Escritura, chegamos agora ao cerne da questão, ou seja, sobre nossa responsabilidade de comunicá-la a outros, isto é, de evangeli¬zar. Mas antes de considerarmos a comunicação do evangelho, pre¬cisamos considerar o conteúdo do evangelho que será comunicado. Pois "evangelizar é divulgai as boas novas ..." (Pacto de Lausanne, § 4º). Não pode, por conseguinte, haver evangelização sem evange¬lho.
a. A Bíblia e o evangelho
O evangelho deve ser encontrado na Bíblia. De fato, em certo sen¬tido, a Bíblia inteira é evangelho, do Génesis ao Apocalipse, pois seu propósito dominante é dar testemunho de Cristo, proclamar as boas novas de que ele é doador da vida e Senhor, e persuadir as pessoas a confiarem nele (p. ex., Jo 5: 39, 40; 20: 31; 2 Tm 3:15).
A Bíblia relata a história do evangelho de muitas maneiras. O evangelho é como um diamante multifacetado, com diferentes as¬pectos que atraem diferentes pessoas em diferentes culturas. Ele tem profundidades insondáveis, e desafia toda tentativa de reduzi-lo a uma formulação restrita.
b. O cerne do evangelho
Contudo, é importante identificai o cerne do evangelho. Reco¬nhecemos como centrais os temas de Deus como Criador, a univer¬salidade do pecado, Jesus Cristo como Filho de Deus, Senhor de tudo, e Salvador através de sua morte expiatória e vida ressurreta;
a necessidade de conversão, a vinda do Espírito Santo e seu poder de transformação, a comunidade e missão da igreja cristã, e a espe¬rança na volta de Cristo.
Mesmo sendo estes os elementos básicos do evangelho, é preci¬so acrescentar que nenhuma afirmação de cunho teológico é inde¬pendente de considerações culturais. Portanto, todas as formula¬ções teológicas devem ser julgadas pela própria Bíblia, que fica acima de todas elas. Seu valor deve ser julgado pela sua fidelidade a ela, bem como pela relevância com que aplicam sua mensagem à sua própria cultura.
Em nosso desejo de comunicar o evangelho com eficiência, esta¬mos sempre cientes daqueles seus elementos que desagradam às pes¬soas. Por exemplo, a cruz tem sido tanto uma ofensa aos arrogan¬tes como uma loucura para os sábios. Mas Paulo nem por isso a eli¬minou de sua mensagem. Pelo contrário, ele continuou a proclamá-la com fidelidade, correndo o risco de perseguição, confiante que Cristo crucificado é a sabedoria e o poder de Deus. Nós também, embora preocupados em contextualizar nossa mensagem, removen¬do dela toda ofensa desnecessária, precisamos resistir à tentação de acomodá-la ao orgulho e preconceito humanos. Ela nos foi dada. Nossa responsabilidade não é retocá-la, mas proclamá-la.
c. Barreiras culturais à comunicação do evangelho
Nenhuma testemunha cristã pode ter esperanças de comunicar o evangelho se ignorar o fator cultural. Isso é particularmente verda¬deiro no caso de missionários, pois eles próprios são o produto de uma cultura e vão a pessoas que pertencem a outro tipo de cultu¬ra. Desta forma, inevitavelmente estão envolvidos na comunicação transcultural, com todo o seu estimulante desafio e exigências. Dois problemas principais colocam-se diante deles.
Algumas pessoas resistem ao evangelho, não porque o achem fal¬so, mas porque vêem nele uma ameaça à sua cultura, especialmen¬te quanto à estrutura de sua sociedade e à sua solidariedade nacio¬nal ou tribal. Até certo ponto não se pode evitar isso. Jesus Cristo é um perturbador da ordem, tanto quanto um pacifista. Ele é Se¬nhor e exige toda a nossa lealdade. Assim alguns judeus do primei¬ro século viam o evangelho como algo que minava o Judaísmo, e acu¬saram Paulo de ensinar por toda a parte "contra o povo, contra a lei e contra este lugar", isto é, o templo (At 21: 28). De modo seme-lhante, alguns romanos do primeiro século temiam pela estabilidade do estado, uma vez que, em seu ponto de vista, os missionários cris¬tãos, ao dizerem que "há outro Rei, Jesus", estavam sendo desleais a César e advogando costumes cuja prática era interdita aos romanos (At 16: 21; 17:7). Ainda hoje Jesus desafia muitas das crenças e cos¬tumes caros a toda cultura e sociedade.
Ao mesmo tempo, há em cada cultura aspectos que não são in¬compatíveis com o senhorio de Cristo, e que, portanto, não preci¬sam ser ameaçados ou descartados, mas, antes, preservados e trans¬formados. Os mensageiros do evangelho precisam desenvolver uma compreensão profunda da cultura local e apreciá-la genuinamente. Só então conseguirão perceber se a resistência se dá em relação a al¬gum desafio inevitável de Jesus Cristo, ou a alguma ameaça à cultura que, seja ela imaginária ou real, não é necessária.
Outro problema é que o evangelho freqüentemente é apresenta¬do por meio de formas culturais alienígenas. Aí surge algum ressen¬timento contra os missionários e sua mensagem é rejeitada porque seu trabalho é visto não como tentativa de evangelizar, mas como tentativa de impor seus próprios costumes e forma de viver. Onde os missionários trazem consigo maneiras estranhas de pensar e se com¬portar, ou atitudes de superioridade racial, de paternalismo ou de preocupação com coisas materiais, a comunicação eficaz fica blo¬queada.
Às vezes esses dois erros de ordem cultural são cometidos ao mesmo tempo, e mensageiros do evangelho são culpados de um imperialismo cultural, que tanto mina a cultural local desnecessa¬riamente como procura impor uma cultura alienígena em seu lugar. Alguns dos missionários que acompanharam os conquistadores católicos da América Latina e os colonizadores protestantes na África e Ásia, são exemplos históricos desse duplo erro. Contras-tanto com isso, o apóstolo Paulo continua sendo o exemplo supre¬mo da pessoa a quem Jesus Cristo primeiro despiu do orgulho de seus próprios privilégios culturais (Fp 3:4-9), e depois ensinou-o a adaptar-se às culturas alheias, fazendo de si mesmo escravo em meio a elas e se tornando "tudo para com todos", a fim de, por to¬das as formas possíveis, salvar alguns (1 Co 9:19-23).
d. Sensibilidade cultural na comunicação do evangelho
Testemunhas transculturais sensíveis não chegam ao seu novo local de trabalho com um evangelho enlatado. É preciso que tenham uma compreensão clara da verdade "dada" do evangelho. Mas esta¬rão fadados ao fracasso em sua comunicação se tentarem impô-la às pessoas sem referência à sua própria situação cultural e à situação cultural das pessoas que vão ouvir a mensagem. Somente através de um compromisso amoroso e ativo com o povo local, levando em conta sua maneira de pensar, compreendendo sua cosmovisão, ouvindo suas perguntas e sendo sensíveis às suas dificuldades, é que a co¬munidade inteira dos que crêem (de que o missionário é parte) terá condições de reagir favoravelmente às necessidades desse povo. Através da oração, pensamento e aspirações comuns, e reconhecen¬do sua inteira dependência do Espírito Santo, os próprios missioná¬rios e os crentes locais poderão aprender juntos como apresentar Cristo e contextualizar o evangelho com o mesmo grau de fidelida¬de e relevância. Não estamos dizendo que isso é fácil, embora algumas culturas terceiro-mundistas tenham uma afinidade natural com a cultura bíblica. Mas acreditamos que uma compreensão no¬va e criativa surja quando a comunidade de crentes, conduzida pelo Espírito, ouve e reage sensivelmente tanto à verdade da Escritura como às necessidades do mundo.
e. Testemunho cristão no mundo islâmico
Houve quem manifestasse preocupação em face da atenção in¬suficiente dispensada na Consulta aos problemas específicos da mis¬são cristã no mundo islâmico, embora hoje existam aproximada¬mente 600 milhões de muçulmanos. Se, por um lado, atualmente há um ressurgimento da fé e missão islâmicas em muitos países, por outro, há uma nova abertura para o evangelho em diversas comu¬nidades onde os laços com o islamismo tradicional estão enfraque¬cendo.
Há necessidade de reconhecer os aspectos particulares do islão que proporcionam uma oportunidade única ao testemunho cristão. Embora existam no islão elementos incompatíveis com o evangelho, há também elementos com certo grau do que se tem chamado de "conversibilidade". Por exemplo, nossa compreensão cristã de Deus, expressa no grande brado de Lutero relacionado com a justificação — "Que Deus seja Deus" poderia muito bem servir como definição abrangente ao islão. A fé islâmica na unidade divina, a ênfase na obri¬gação do homem de render a Deus uma justa adoração e a inteira re¬jeição da idolatria, poderiam ser consideradas também como estan¬do em harmonia com o propósito de Deus para a vida humana, tal qual se revela em Jesus Cristo. As testemunhas cristãs contemporâ¬neas deveriam aprender, com humildade e expectativa, a identificar, apreciar e iluminar estes e outros valores. Deveriam também lutar pela transformação (e, onde possível, integração) de tudo que é re¬levante no culto islámico, bem como em seu modo de orar e jejuai e em sua arte, arquitetura e caligrafia.
Tudo isso só faz sentido dentro de uma apreciação realista da situação presente dos países islâmicos caracterizados pelo desenvolvimento tecnológico e pela secularização. As tensões sociais que surgem por causa da nova riqueza e da pobreza tradicional, as tensões da independência política, e a trágica dispersão e frustração palestinas, em todas essas áreas é relevante o testemunho cristão 0 problema palestino já rendeu muita poesia passional, no que s encontra como um dos temas o paradigma do Jesus sofredor. Este e outros elementos exigem uma nova sensibilidade cristã e um real consciência dos hábitos de introversão sob os quais, por tanto tempo, laborou a igreja no Oriente Médio. Em outras partes, com na África abaixo do Saara, as atitudes são mais flexíveis e as possibilidades mais fluidas.
A fim de cumprir mais adequadamente o desafio missionário novas tentativas devem ser feitas para desenvolver meios de juntar crentes e pessoas interessadas, até mesmo fora das formas tradicionais da igreja, se for necessário. O cerne da questão de um senso d responsabilidade vivo. evangelizador, diante dos muçulmanos, estará sempre na qualidade do discipulado cristão pessoal e coletivo, no amor constrangedor de Cristo.
f. Expectativa de resultados
Mensageiros do evangelho que puderam comprovar pessoalmente que o evangelho é o "poder de Deus para a salvação" (Rm 1:16 esperam, com justa razão, que o mesmo se dê na experiência de outros. Confessemos que algumas vezes, assim como um dia a fé de um centurião gentio fez Israel envergonhar-se de sua descrença em Jesus (Mt 8: 10), assim também, às vezes, hoje em dia, a confiante expectativa dos cristãos de outras culturas acaba revelando a falta de fé d missionário. De maneira que nos lembramos das promessas de Deus para abençoar todas as famílias da terra através da posteridade d Abraão e para, através do evangelho, salvar todos os que crerei (Gn 12:14; 1 Co 1: 21). Com base nessas e em muitas outras promessas é que encorajamos todos os mensageiros do evangelho, incluindo nós mesmos, a confiarmos em Deus, a fim de que ele salva pessoas e edifique sua igreja.
Ao mesmo tempo, não nos esquecemos das advertências de nosso Senhor quanto à oposição e ao sofrimento. O coração humano é duro. As pessoas nem sempre abraçam o evangelho, mesmo quan do a comunicação é tecnicamente impecável, e o comunicador dota¬do de um caráter acima de qualquer censura. Nosso Senhor sentia-se completamente à vontade no meio cultural em que pregava, e con¬tudo, tanto ele como sua mensagem foram desprezados e rejeitados, e sua Parábola do Semeador parece querer dizer-nos que a maior parte da boa semente não dará fruto. Há nisso um mistério que não podemos explicar. "O Espírito sopra onde ele quer" (Jo 3:8). En¬quanto procuramos comunicar o evangelho com cuidado, fidelida¬de e zelo, deixamos, humildemente, os resultados por conta de Deus.
Tópicos para Discussão
1. Na Seção 5 (a e b) o Relatório recusa-se a fornecer uma "formu¬lação" do evangelho, mas identifica seu "cerne". Você gostaria de acrescentar alguma coisa a esses "temas centrais", subtrair-lhes algum dado ou ampliá-los?
2. Explicite os "dois erros de ordem cultural" de 5c. Você poderia dar exemplos? Como evitar tais erros?
3. Pense na situação cultural das pessoas (ou povo) que você gosta¬ria de ganhar para Cristo. Que significaria, em seu caso, "sensibi¬lidade cultural"?
6. Procura-se: Mensageiros Humildes do Evangelho!
Cremos que a chave principal da comunicação cristã persuasiva se encontra nos próprios comunicadores e no tipo de pessoas que representam. É claro que precisam distinguir-se por uma fé, amor e santidade cristã. Ou seja, precisam ter uma experiência pessoal e crescente do poder de transformação do Espírito Santo, de modo que a imagem de Jesus Cristo seja mais que nunca claramente vista em seu caráter e em suas atitudes.
Acima de tudo, desejamos ver neles, e especialmente em nós mes¬mos, "a mansidão e bondade de Cristo" (2 Co 10: 1). Em outras pa¬lavras, a humilde sensibilidade do amor de Cristo. Tão importante nos parece isso, que estamos dedicando toda a segunda parte de nos¬so Relatório ao assunto. Além disso, uma vez que não desejamos apontar nosso dedo para ninguém além de nós mesmos, usaremos sempre a primeira pessoa do plural. Primeiro, fornecemos uma análise da humildade cristã numa situação missionária; depois, voltamo-nos para a Encarnação de Deus em Jesus Cristo como o modelo que, por sua graça, desejamos seguir.
a. Análise da humildade missionária
Primeiro, existe a humildade em reconhecer o problema que a cul¬tura apresenta, e não em evitá-lo ou simplificá-lo excessivamente. Como já vimos, diferentes culturas têm influído poderosamente na revelação bíblica, em nossas vidas e nas vidas das pessoas (ou povo) junto às quais vamos viver. Como resultado, temos diversas limita¬ções pessoais na comunicação do evangelho. Somos prisioneiros (consciente ou inconscientemente) de nossa própria cultura e assim nossa compreensão, tanto da cultura da Bíblia como da existente no país em que servimos, é muito imperfeita. À interação entre to¬das estas culturas constitui o problema da comunicação. Este proble¬ma é tão complexo que se constitui um enorme desafio a todos que lutam com ele.
Em segundo lugar, existe a humildade em se dar ao trabalho de compreender e apreciar a cultura do povo ao qual fomos enviados. É esse desejo que leva naturalmente ao diálogo verdadeiro, "que tem por propósito ouvir conscientemente, para melhor compreender" (Pacto de Lausanne, § 4º). Arrependemo-nos da ignorância que con¬sistem em achar que temos todas as respostas e que nosso único pa¬pel é ensinar. Temos muito a aprender. Arrependemo-nos também do hábito de julgar. Sabemos que nunca deveríamos condenar ou desprezar outra cultura, mas, ao invés disso, respeitá-la. Não advo¬gamos nem a arrogância que impõe nossa cultura a outros, nem o sincretismo que mistura o evangelho com elementos culturais in¬compatíveis com ele, mas, antes, a humilde partilha das boas novas, tornada possível pelo respeito mútuo de uma amizade genuína.
Em terceiro lugar, existe a humildade em realizar nossa comuni¬cação onde as pessoas realmente estão, e não onde gostaríamos que elas estivessem. É isso que vemos Jesus fazer, e desejamos seguir o exemplo dele. Com freqüência, ignoramos os temores e frustrações das pessoas, seus sofrimentos e preocupações, sua fome, pobreza, privações e opressão, e todas as suas necessidades "imediatas" e temos sido lentos demais em nos regozijarmos ou chorarmos com elas. Reconhecemos que essas necessidades "imediatas" podem, às vezes, ser sintomas de necessidades mais profundas, que não sejam tão facilmente sentidas ou reconhecidas pelas pessoas. Mas o médico não aceita necessariamente o autodiagnóstico de seu paciente. Ainda que vejamos a necessidade de começar onde as pessoas estão, não devemos parar aí. Gentil e pacientemente aceitamos nossa res¬ponsabilidade de levá-las a ver-se a si mesmas, da mesma forma que nós nos vemos a nós mesmos, como rebeldes a quem o evangelho fala diretamente com a mensagem do perdão e da esperança. Come¬çar onde as pessoas não estão é partilhar uma mensagem irrelevante. Ficar onde as pessoas estão e não levá-las a fruir da plenitude das boas novas de Deus. é partilhar um evangelho truncado. A humilde sensibilidade do amor evita ambos os erros.
Em quarto lugar, existe a humildade em reconhecer que mesmo o missionário mais dotado, dedicado e experiente, raramente pode¬rá comunicar o evangelho em outra língua ou cultura tão eficien¬temente quanto um cristão local treinado para isso. Esse fato tem sido reconhecido nos últimos anos pelas Sociedades Bíblicas, cuja política mudou de direção, preferindo, ao invés de publicar tradu¬ções de missionários (com ajuda de pessoas locais), treinar especia¬listas da língua-mãe a fazer as traduções. Somente cristãos locais poderão responder a estas perguntas: "Deus, como tu dirias isso em nossa língua?" e "Deus, que quer dizer obediência a ti em. nossa cultura?" Portanto, quer estejamos traduzindo a Bíblia ou comu¬nicando o evangelho, cristãos locais são indispensáveis. Eles é que devem assumir a responsabilidade de contextualizar o evangelho em seus próprios idiomas e culturas. Isto não quer dizer que teste¬munhas transculturais são necessariamente supérfluas; mas só sere¬mos bem-vindos se formos humildes bastante para vermos a boa co¬municação como uma tarefa de equipe, em que todos os crentes colaboram como parceiros.
Em quinto lugar, existe a humildade em confiar no Espírito San¬to de Deus, que é sempre o principal comunicador. É só ele que abre os olhos dos cegos e leva as pessoas a experimentar um novo nascimento. "Sem o testemunho dele, o nosso seria em vão" (Pacto de Lausanne, § 14).
b. A Encarnação como modelo do testemunho cristão
Encontramo-nos para a Consulta nas vésperas do Natal, que po¬deria ser chamado de o exemplo mais espetacular de identificação cultural na história da humanidade, uma vez que, através da En¬carnação, o Filho se transformou num judeu galileu do primeiro século.
Lembramo-nos também de que a intenção de Jesus era que a missão de seu povo no mundo fosse modelada em sua própria mis¬são. "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio", disse ele (Jo 20: 21; cf. 17: 18). Perguntamo-nos, portanto, quais as im¬plicações da Encarnação para todos nós. A questão é de interesse especial para as testemunhas transculturais, seja qual for o país on¬de trabalhem, embora, em particular, estejamos pensando nos pro¬cedentes de países ocidentais que vão servir nos países do Terceiro Mundo.
Meditando em Filipenses 2, vimos que a auto-humilhação de Cris¬to começou em seu espírito: "Não julgou como usurpação o ser igual a Deus." De maneira que somos ordenados a deixar que a mente de Cristo se desenvolva entre nós e, em humildade de espírito, conside¬rar também outras pessoas melhores e mais importantes que nós, Es¬sa "mente" ou "perspectiva" de Cristo é um reconhecimento do va¬lor infinito dos seres humanos e do privilégio que é servir a eles. As testemunhas que tiverem a mente de Cristo terão um profundo res¬peito pelas pessoas a que servirem, e por suas culturas.
Dois verbos indicam a ação a que a mente de Cristo o conduziu: "se esvaziou ... se humilhou ..." O primeiro fala de sacrifício, aquilo a que renunciou, e o segundo, de serviço, mesmo escravidão, pois ele se identificou conosco e se colocou à nossa disposição. Te¬mo-nos esforçado por compreender o que essas duas ações significam para ele, e o que poderiam significar para testemunhas transculturais.
Começamos com sua renúncia. Primeiro, a renúncia ao status. "Cristo, eternamente honrado, do seu trono se ausentou", temos can¬tado no Natal. Por não podermos conceber como era sua glória eterna, é impossível compreender a grandeza de seu auto-esvazia¬mento. Mas certamente ele renunciou aos direitos, privilégios e po¬deres de que gozava como Filho de Deus. "Status" e "símbolos de status" significam muito no mundo moderno, mas são incongruen¬tes em missionários. Não importando onde os missionários estejam, acreditamos que eles não deveriam assumir o controle, ou trabalhar sozinhos, mas sempre com — e preferencialmente sob a direção de — cristãos locais que possam assessorá-los e mesmo orientá-los. E seja qual for a responsabilidade dos missionários, eles deveriam ex¬pressar atitudes, "não em termos de domínio, mas, sim, de serviço" (Pacto de Lausanne, § 11).
A seguir vem a renúncia à independência. Temos visto Jesus pedir água a uma mulher samaritana, vivendo em casas de outras pessoas e à custa do dinheiro de outras mais, porque ele mesmo não o tinha. Vimo-lo tomar um barco emprestado, um jumento, um cenáculo, e até ser enterrado num túmulo emprestado. Semelhantemente, os mensageiros transculturais, especialmente durante seus primeiros anos de serviço, precisam aprender a depender de outros.
Depois vem a renúncia à imunidade. Jesus se expôs à tentação, ao sofrimento, à limitação, à necessidade econômica e à dor. Assim também deveria o missionário esperar que se tome vulnerável a no¬vas tentações, perigos e doenças; a um clima estranho, à solidão inu¬sitada e, possivelmente, à morte.
Passando do tema da renúncia ao da identificação, maravilhamo-nos com a plenitude da identificação de nosso Senhor conosco, par¬ticularmente como a vemos na epístola aos Hebreus. Ele partilhou de nossa "carne e sangue", foi tentado da mesma forma em que o somos, aprendeu a obedecer através do sofrimento e provou a mor¬te em nosso lugar (Hb 2:14-18; 4: 15; 5: 8). Durante seu ministério público Jesus fez-se amigo de pobres e de pessoas humildes, curou doentes, alimentou famintos, tocou intocáveis e arriscou sua reputa¬ção associando-se com pessoas que a sociedade rejeitava.
A extensão de nossa identificação com o povo no lugar onde tra¬balhamos é matéria controversa. Certamente que isso inclui dominar a sua língua, mergulhar na sua cultura, aprender a pensar como eles pensam, sentir como eles sentem e fazer como eles fazem. A nível sócio-econômico, não cremos que seja necessário "naturalizar-se", isto é, viver exatamente como o povo vive, porque a tentativa de um estrangeiro fazer isso pode não ser vista como autêntica, mas como algo falso e artificial. Mas não achamos que deva haver uma disparidade berrante entre nosso estilo de vida e o estilo de vida das pessoas que nos cercam.
Entre esses extremos existe a possibilidade de desenvolvermos um padrão de vida que expresse o tipo de amor que cuida e partilha, e que acha natural ser reciprocamente hospitaleiro com outros, sem nenhum constrangimento. Um profundo teste da nossa identifica¬ção é perguntar até que ponto sentimos que pertencemos ao povo e, mais ainda, até onde o povo sente que nós pertencemos a ele. Partici¬pamos naturalmente em dias de ação de graças nacionais ou tribais? Unimo-nos a eles na dor da opressão de que são vítimas, tanto quan¬to em sua busca de justiça e liberdade? Se o país é vítima de um tre-mor de terra ou de uma guerra civil, nosso impulso natural é ficar e sofrer com o povo que amamos ou voltar correndo para casa?
Embora Jesus se identificasse completamente conosco, ele não perdeu sua própria identidade. Ele continuava sendo ele mesmo. "Desceu dos céus ... e tornou-se homem" (Credo de Nicéia). Con¬tudo, ao se tornar um de nós, ele não deixou de ser Deus. Por isso mesmo, "os evangelistas de Cristo devem, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal" (Pacto de Lausanne, § 10). A Encarnação ensina a identificação sem perda de identidade. Acreditamos que o verdadeiro auto-sacrifício leva à ver-dadeira autodescoberta. No serviço humilde há abundante gozo.
Tópicos para Discussão
1. Se a chave principal da comunicação está nos comunicadores, que tipo de pessoas eles deveriam ser?
2. Faça sua própria análise da humildade que todas as testemunhas cristãs deveriam ter. Onde você colocaria sua ênfase?
3. Desde que a Encarnação envolveu tanto "renúncia" quanto "iden¬tificação", é evidente que foi custosa para Jesus. Qual seria o preço da "evangelização encarnada" hoje?
 
7. Conversão e Cultura
Temos pensado nas relações entre conversão e cultura de duas ma¬neiras. Primeiro, que efeito é produzido pela conversão na situação cultural dos conversos, na sua maneira de pensar e agir, e em suas ati¬tudes para com seu ambiente social? Segundo, qual o efeito que nos¬sa cultura tem produzido em nossa compreensão da conversão? Am¬bas as perguntas são importantes. Mas queremos dizer de imediato que alguns elementos da nossa visão evangélica tradicional da conver¬são são mais culturais do que bíblicos e, por isso, precisam ser desa¬fiados. Com freqüência pensamos em conversão como sendo uma cri¬se, ao invés de vê-la também como processo. Ou a temos visto em grande parte como uma experiência particular, esquecendo suas con-seqüentes responsabilidades públicas e sociais.
a. A natureza radical da conversão
Estamos convencidos de que a natureza radical da conversão a Jesus Cristo precisa ser reafirmada na igreja contemporânea. Pois sempre corremos o risco de trivializá-la, como se não fosse mais do que uma mudança superficial, uma simples auto-reforma. Mas os au¬tores do Novo Testamento falam da conversão como a expressão externa de uma regeneração ou um novo nascimento pelo Espírito de Deus, uma recriação e uma ressurreição da morte espiritual. O conceito de ressurreição parece particularmente importante. A res¬surreição de Jesus Cristo de dentre os mortos foi o começo da nova criação de Deus e, pela graça de Deus através da união com Cristo, temos participado dessa ressurreição. Ingressamos, portanto, numa nova era, e já experimentamos seu poder e gozo. Essa é a dimensão escatológica da conversão cristã. Conversão é uma parte integrante da Grande Renovação iniciada por Deus, e que será conduzida a um clímax triunfante quando Cristo vier em sua glória.
A conversão envolve também uma ruptura tão completa com o passado, que dela só se fala em termos de morte. Fomos crucifica¬dos com Cristo. Através de sua cruz morremos para o mundo sem Deus, para sua perspectiva e seus padrões. Como quem se despe de uma roupa suja, também "nos despimos" do velho Adão, nossa antiga e decaída humanidade. E Jesus nos advertiu para o fato de que essa ruptura em relação ao passado pode envolver dolorosos sacrifícios, mesmo a perda da família e das posses pessoais (p. ex., Lc 14: 25ss).
É de vital importância inter-relacionarmos os aspectos negativos e positivos da conversão: morte e ressurreição, o despir-se do velho e o vestir-se do novo. Pois nós, que morremos, estamos vivos nova¬mente, mas vivendo agora uma nova vida em Cristo, para Cristo e sob o senhorio de Cristo.
b. O senhorio de Jesus Cristo
Está claro, para nós, que o significado fundamental da conver¬são é uma mudança de lealdade. Outros deuses e senhores (ídolos, todos) tiveram domínio sobre nós. Mas agora Jesus Cristo é Senhor. O princípio que governa a vida do converso é o fato de que ela é vivida sob o senhorio de Cristo ou (o que vem a dar no mesmo) é vivida no Reino de Deus. A autoridade de Cristo sobre nós é to¬tal. De maneira que essa nova lealdade libertadora conduz inevi¬tavelmente a uma reavaliação de cada aspecto de nossas vidas e, em particular, de nossa cosmovisão, nossa conduta e nossas rela¬ções.
Primeiro, nossa cosmovisão. Estamos de acordo em que o cerne de toda cultura é alguma forma de "religião", mesmo que seja uma religião irreligiosa, como o marxismo. "Cultura é religião tornada visível" (J. H. Bavinck). E "religião" é um conjunto de crenças e valores. Por esta razão, estamos usando "cosmovisão" como ex¬pressão equivalente. A verdadeira conversão a Cristo há de desafiar o cerne de nossa herança cultural. Jesus Cristo insiste em deslocar do centro de nosso mundo qualquer ídolo que se tenha anterior-mente instalado aí, ocupando Ele próprio o trono. Essa é a radical mudança de lealdade que constitui a conversão ou, pelo menos, seu início. Então, uma vez que Cristo tomou seu justo lugar, tudo o mais começa a mudar. As ondas de impacto vão do centro para a circunferência. O convertido tem de repensar suas convicções funda¬mentais. Isso é metanoia, "arrependimento", visto como mudan¬ça de atitude, a substituição da "Vontade da carne" pela "mente de Cristo". Naturalmente, o desenvolvimento de uma cosmo visão cristã integrada pode levar uma vida inteira mas. em essência, está lá desde o início. Se crescer, as conseqüências explosivas não pode¬rão ser preditas.
Segundo, nossa conduta. O senhorio de Jesus desafia nossos pa¬drões morais e nosso estilo de vida ético. A rigor, isso não é "arre¬pendimento", mas antes o "fruto digno do arrependimento" (Mt 3: 8), ou seja, a mudança de conduta que resulta de uma mudança de perspectiva. Tanto nossa mente como nossa vontade devem sub¬meter-se em obediência a Cristo (cf. 2 Co 10:5; Mt 11:29, 30; Jo 13: 13).
Ouvindo casos específicos de conversão, ficamos impressiona¬dos em ver a primazia do amor na experiência do novo convertido. A conversão liberta tanto da introversão, que está preocupada de¬mais consigo própria para se preocupar com outros, como do fata¬lismo, que considera impossível ajudá-los. A conversão é espúria se não nos liberta para o amor.
Terceiro, nossas relações, Embora o convertido deva fazer o má¬ximo para evitar uma ruptura com a nação, tribo ou família, sur¬gem algumas vezes conflitos dolorosos. Está claro também que a conversão envolve a transferência de uma comunidade para outra, isto é, de uma humanidade decaída para a nova humanidade de Deus. Isso aconteceu desde o início, no dia de Pentecostes: "Salvai-vos desta geração perversa", foi o apelo de Pedro. De maneira que os que receberam sua mensagem foram batizados na nova socieda¬de, dedicaram-se à nova comunidade e descobriram que o Senhor continuava a acrescentar "dia a dia, os que iam sendo salvos" (At 2:40-47). Ao mesmo tempo, sua "transferência" de um grupo para outro significava, antes de tudo, que eles eram espiritualmente dis¬tintos, não socialmente segregados. Eles não abandonaram o mundo. Pelo contrário, ganharam um novo compromisso com ele (e para ele partiram), e se envolveram nele a fim de que pudessem testemu¬nhar e servir.
Todos nós deveríamos alimentar grandes esperanças de radicais conversões em nossos dias, envolvendo convertidos em um novo es¬pírito, uma nova forma de vida, uma nova comunidade e uma nova missão. Tudo isso sob o senhorio de Cristo. Contudo, sentimos ago¬ra necessidade de esclarecer alguns pontos.
c. O convertido e sua cultura
A conversão não deve "desculturalizar" o convertido. Na verdade, como temos visto, sua lealdade agora pertence ao Senhor Jesus, e todas as coisas do seu contexto cultural devem submeter-se ao es¬crutínio do Senhor. Isso se aplica a toda a cultura, não somente às culturas hindu, budista, islâmica ou animística, mas também à cul¬tura cada vez mais materialista do Ocidente. A crítica pode produzir uma colisão, á medida que elementos da cultura forem submetidos ao juízo de Cristo e tiverem de ser rejeitados. Nesse ponto, como reação, o convertido pode tentar adotar a cultura do evangelista em lugar da sua. Deve-se resistir firme mas carinhosamente a essa tenta¬tiva.
Dever-se-ia estimular o convertido para que visse suas relações com o passado como uma combinação de ruptura e continuidade. Por mais que os novos convertidos sintam que precisam renunciar por amor de Cristo, ainda são as mesmas pessoas, com a mesma herança e a mesma família. "A conversão não desfaz; ela refaz." É sem¬pre trágico, embora seja às vezes inevitável, quando a conversão da pessoa a Cristo é interpretada por outros como traição às suas ori¬gens culturais. Se possível, a despeito do conflito com sua cultura, os novos convertidos deveriam procurar identificar-se com as ale¬grias, esperanças, dores e lutas de sua cultura própria.
Testemunhos específicos mostram que os convertidos freqüen¬temente passam por três estágios: (1) "rejeição" (quando se vêem a si próprios como "novas pessoas em Cristo" e repudiam tudo que es¬tá associado a seu passado); (2) "adaptação" (quando descobrem sua herança étnico-cultural, e sofrem a tentação de comprometer sua no¬va fé cristã com essa herança); e (3) o "reestabelecimento da identi¬dade" (quando a rejeição do passado ou a acomodação a ele podem aumentar, ou ainda, de preferência, quando desenvolvem uma auto¬consciência equilibrada em Cristo e na cultura).
d. O confronto do poder
"Jesus é Senhor" significa mais do que simplesmente Senhor da cosmovisão de cada convertido, e de seus padrões e relações. Signi¬fica ainda mais do que Senhor da cultura. Significa que ele é Senhor dos poderes, elevado pelo Pai à soberania universal, ficando sujeitos a ele principados e potestades (1 Pe 3: 22). Alguns dentre nós, parti¬cularmente os da Ásia, África e América Latina, falaram tanto da realidade das forças do mal como da necessidade de demonstrar a supremacia de Jesus sobre elas. Pois a conversão envolve um confron¬to de poder. As pessoas dedicam sua lealdade a Cristo quando vêem que seu poder é superior à magia e à macumba, às maldições e bênçãos de curandeiros, à malevolencia dos maus espíritos; e que sua sal¬vação é uma libertação real do poder do mal e da morte.
Sabemos que hoje algumas pessoas negam que a crença nos espí¬ritos ê compatível com a compreensão científica do universo. Por¬tanto, contra o mito mecanicista em que se apóia a cosmovisão ti¬picamente ocidental, queremos afirmar a realidade das inteligências demoníacas, interessadas, por todos os meios manifestos e latentes, em desacreditar Jesus Cristo e impedir que as pessoas venham até ele. Achamos de vital importância para a evangelização, em todas as culturas, ensinar a realidade e hostilidade das forças demonía¬cas, e a proclamar que Deus exaltou Cristo como Senhor de tudo, e que Jesus Cristo, que de fato possui todo o poder, por mais que deixemos de reconhecer isso, pode (quando o proclamamos) rom¬per qualquer cosmovisão, na mente de qualquer pessoa, manifes¬tando seu poder e produzindo uma mudança radical de coração e perspectiva.
Desejamos salientar que o poder pertence a Cristo. O poder nas mãos humanas é sempre perigoso. Lembra-nos o tema recorrente das duas cartas de Paulo aos Coríntios: que o poder de Deus, que se vê claramente na cruz de Cristo, opera através da fraqueza humana (p. ex., 1 Co 1:18-2: 5; 2 Co 4: 7; 12: 9, 10). As pessoas mundanas glorificam a força; os cristãos que a possuem conhecem seus riscos. Ê melhor sermos fracos, pois então somos fortes. Prestamos nossa homenagem especial aos mártires cristãos modernos (p. ex., os da Africa Oriental) que renunciaram ao caminho da força e seguiram o caminho da cruz.
e. Conversões individuais e em grupo
A conversão não deveria ser concebida como sendo só e invaria¬velmente uma experiência individual, embora essa tenha sido a ex¬pectativa no padrão ocidental, por muitos anos. Pelo contrário, o tema da aliança no Velho Testamento e os batismos domésticos no Novo nos levariam a desejar, esperar e trabalhar tanto pela con¬versão familiar como em grupo. Importantes pesquisas têm sido feitas, ultimamente, sobre "movimentos grupais", tanto na pers¬pectiva teológica como na sociológica. Teologicamente, reconhe¬cemos a ênfase bíblica na solidariedade de cada etnia, isto é, nação ou povo. Sociologicamente, reconhecemos que cada sociedade é composta de uma variedade de subgrupos, subculturas ou unida-des homogéneas. É evidente que as pessoas recebem o evangelho com mais facilidade quando o mesmo é apresentado a elas de maneira apropriada, não alienada, à sua cultura, e quando podem recebê-lo com e entre seu próprio povo. Diferentes sociedades têm diferentes métodos de tomada de decisão em grupo, p. ex., por consenso, pe¬lo chefe da família, ou através de um grupo de anciãos ou dignata¬rios. Reconhecemos a validade da dimensão social da conversão co¬mo parte do processo global, bem como a necessidade de cada mem¬bro do grupo participar nela em pessoa, seja mais cedo ou mais tarde.
f. A conversão é súbita ou gradual?
A conversão em geral é mais gradual do que considera a doutri¬nação evangélica tradicional. Na verdade, isso pode ser apenas uma disputa sobre palavras. Justificação e regeneração, a primeira levan¬do a um novo status, e a segunda a uma nova vida, são obras de Deus, e instantâneas, embora não estejamos necessariamente cientes de quando ocorrem. A conversão, por outro lado, é nossa própria ação (movida peta graça de Deus) de nos voltarmos para Deus em pe¬nitência e fé. Embora possa incluir uma crise consciente, ela é fre¬qüentemente lenta e às vezes trabalhosa. Tendo como pano de fun¬do o vocabulário hebraico e grego, a conversão, em essência, é um voltar-se para Deus, que continua à medida que todas as áreas da vida são colocadas sob o senhorio de Cristo de maneira sempre mais radical. A conversão envolve uma completa transformação do cris¬tão, bem como uma total renovação da mente e do caráter, de acor¬do com a semelhança de Cristo (Rm 12:1, 2).
Esse progresso nem sempre ocorre, todavia. Dedicamos alguma reflexão aos tristes fenômenos de "frieza espiritual" (um paulati¬no afastamento de Cristo) e "apostasia" (franco repúdio a ele). Ambos têm uma variedade de causas. Algumas pessoas se desviam de Cristo quando ficam desencantadas com a igreja; outras capitu¬lam diante das pressões do secularismo ou de sua antiga cultura. Es¬ses fatos nos desafiam para que proclamemos um evangelho pleno e sejamos mais conscienciosos em relação aos convertidos, nutrindo-os na fé e treinando-os para o serviço.
Um dos membros da Consulta descreveu sua experiência em ter¬mos de se voltar primeiro para Cristo (recebendo sua salvação e reconhecendo seu senhorio), depois para a cultura (redescobrindo suas origens e identidade natural) e, terceiro, para o mundo (acei¬tando a missão para a qual Jesus Cristo o enviou). Concordamos que a conversão é sempre uma experiência complexa, e que a lin¬guagem bíblica desse "voltar-se" é usada de diferentes maneiras e em diferentes contextos. Ao mesmo tempo, todos salientamos que o compromisso pessoal com Jesus Cristo é essencial. Nele, e somente nele, encontramos a salvação, uma vida nova e a identi¬dade pessoal. A conversão precisa também resultar em novas ati¬tudes e relações, e levar a um envolvimento responsável em nossa igreja, nossa cultura e nosso mundo. Finalmente, a conversão é uma jornada, uma peregrinação, com novos desafios, novas deci¬sões e novos retornos ao Senhor como constante ponto de referên¬cia, até que ele volte.
Tópicos para Discussão
1. Faça a distinção entre "regeneração" e "conversão" de acordo com o Novo Testamento.
2. "Jesus é Senhor". Que significa isso para você em sua própria cultura? Veja a Seção 7 (a e b). Quais os elementos de sua pró¬pria herança cultural a que você sente (a) que deve e (b) não pre¬cisa renunciar por amor de Cristo?
3. Que é súbito e que é (ou pode ser) gradual na conversão cristã?
8. Igreja e Cultura
No processo de formação de igrejas, como na comunicação e recepção do evangelho, a questão da cultura é de vital importância. Se o evangelho deve ser contextualizado, a igreja também o deve. Na verdade. o subtítulo de nossa Consulta foi "a contextualização da Palavra e da Igreja na situação missionária".
a. Abordagens antigas e tradicionais
Durante a expansão missionária do princípio do século XIX, pressupunha-se, em geral, que as igrejas resultantes do trabalho missionário seriam moldadas nas igrejas dos países de origem. A ten¬dência era reproduzir réplicas quase perfeitas. A arquitetura gótica, a liturgia, as vestes clericais, os instrumentos musicais, hinos e mú¬sicas, processos de tomada de decisão, sínodos e comissões, supe-rintendenes e bispos; tudo isso era exportado e, sem imaginação alguma, introduzido nas novas igrejas fundadas pelas missões. Acres¬cente-se que tais padrões eram também ansiosamente adotados pe¬tos novos cristãos, resolvidos a não ficar para trás de seus amigos ocidentais, cujos hábitos e formas de adoração tinham sido por eles atentamente observados. Mas tudo isso se baseava na falsa premis¬sa de que a Bíblia deu instruções específicas sobre tais assuntos, 2 que o padrão de governo, culto, ministério e vida das igrejas de origem eram modelos perfeitos.
Em reação a esse sistema de exportação monocultural, pensado¬res missionários pioneiros, como Henry Venn e Rufus Anderson, em meados do século passado, e Roland Allen, no início deste século, popularizaram o conceito de igrejas "autóctones", que se¬riam "autônomas, independentes e missionárias". Souberam defen¬der bem seu ponto de vista, salientando que a política do apóstolo Paulo era plantar igrejas, não fundar "missões" no sentido antigo da palavra (um complexo de prédios, onde tudo se conformava aos padrões culturais dos missionários). Também acrescentaram ar¬gumentos pragmáticos à argumentação bíblica, ou seja, que uma li¬derança nacional era indispensável ao crescimento da igreja na ma¬turidade e na missão. Henry Venn confiantemente esperava o dia em que as missões pudessem transferir toda a responsabilidade às igrejas nacionais; aí, então, o que ele chamava de "a eutanásia da missão" acabaria ocorrendo. Essas idéias tiveram larga aceitação e foram bas¬tante influentes.
Entretanto, atualmente são criticadas, não por causa do ideai em si mesmo, mas por causa da maneira como ele tem sido aplicado. Al¬gumas missões, por exemplo, têm aceitado a necessidade de uma li¬derança autóctone e, com base nela, chegado até o ponto de recrutar e treinar líderes locais, doutrinando-os (a palavra é dura mas não in¬justa) nas formas de pensamento e procedimento ocidentais. Esses líderes locais ocidentalizados têm então preservado uma igreja de aparência muito ocidental e a orientação alienígena tem persistido, só que um pouco disfarçada por sua aparência autóctone.
Agora, portanto, um conceito mais radical de vida eclesiástica autóctone precisa ser desenvolvido, através do qual toda igreja pos¬sa descobrir e expressar sua identidade como o corpo de Cristo den¬tro de sua cultura.
b. Modelo de equivalência dinâmica
Usando as distinções entre "forma" e "significado", e entre "correspondência formal" e "equivalência dinâmica", já desen¬volvidas na teoria da tradução, e que comentamos na Seção 3, su¬gere-se uma analogia entre a tradução bíblica e a formação de igre¬jas. "Correspondência formal" fala de uma imitação servil, quer se trate de traduzir uma palavra para outra língua, ou de exportar um modelo de igreja para outra cultura. Exatamente como a "equiva¬lência dinâmica", na tradução, procura levar a leitores contempo¬râneos significados equivalentes aos propiciados aos leitores originais, usando formas culturais apropriadas, assim também procede a igreja da “equivalência dinâmica”. Ela está para sua cultura como uma boa rtadução da Bíblia está para sua língua. Ela preserva os elementos e funções essenciais que o Novo Testamento estabelece para a igreja, mas procura expressá-los em formas equivalentes aos originais, desde que apropiadas à cultura local.
Todos nós achamos esse modelo sugestivo e valioso e afirmamos decididamente os ideais que ele busca expressar. Esse modelo, com justiça, rejeita as importações de fora, bem como as imitações e as estruturas rígidas. Busca no Novo Testamento os princípios da formaçõa de igrejas, ao invés de ir buscá-los quer na tradição quer na cultura. E corretamente, procura na cultura local as formas adequadas para a expressão de tias princípios. Todos nós (mesmo os que vêem limitações no modelo) partilhamos a visão  que esse modelo procura descrever.
Assim, o Novo Testamento aponta a igreja como uma comunidade que adora a deus, uma comunidade de culto, um “sacerdócio santo, a fim de oferecer sacrifícios espirituais ... a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1Pe 2:5), mas as formas de culto (incluindo a presença ou ausência de diferentes tipos de liturgia, cerimônia, música, cores, drama etc) serão desenvolvidas pela igreja em harmonia coma cultura local. Semelhantemente, a igreja é sempre uma comunidade de testemunho e serviço, mas seus métodos de evangelização e seu prorama de envolvimento social certamente sofrerão variações. Além disso, Deus quer que todas as igrejas tenham supervisão pastoral (episkope), mas formas de governo e ministério podem diferir grandemente, e a seleção, formação, ordenação, serviço, pagamento e responsabilidade dos pastores hão de ser determinados pela igreja, de maneira a concordarem com princípios bíblicos adequando-se ao mesmo tempo à cultura local.
As perguntas que se fazem agora acerca do moedelo de “equivalência dinâmica” procuram saber se, por si só, esse modelo é suficientemente amplo e dinâmico para fornecer toda a orientação necessária. A analogia entre a tradução da Bíblia e a formação de igrejas não é exata. Na primeira o tradutor controla o processo e, quando a tarefa está completa, é possível fazer uma comparação dos dois textos. Na última, entretanto, o original para o qual se procura um equivalente não é um texto pormenorizado, mas uma série de relances da igreja primitiva em ação, tornando a comparação mais difícil e, ao invés de um tradutor que tudo controla, toda a comunidade da fé precisa ser envolvida. Além disso, o tradutor procura ser objetivo, mas quando a igreja local procura relacionar-se convenientemente com a cultura local, a objetividade torna-se quase impossível. Em muitas situações ela fica no meio de “umconfronto entre duas civilizações” (a de sua própria sociedade e a dos missionários). Além disto, ela pode encontrar muita dificuldade ao atender às vozes conflitantes da comunidade local. Alguns clamam por mudança (em termos de alfabetização, educação, tecnologia, medicina moderna, industrialização etc), enquanto outros insistem na conservação da velha cultura e resitem à chegada de uma nova era. Pergunta-se se o modelo de “equivalência dinâmica” é dinâmico o bastante para fazer face a esse tipo de desafio.
O teste deste ou qualquer outro modelo, criado com a finalidade de ajudar as igrejas a se desenvolverem adequadamente, está nele poder habilitar o povo de Deus a captar em seu coração e mente o grande desígnio do qual sua igreja há de se a expressão local qualquer modelo só apresenta uma visão parcial. As igrejas locais, em última instância, precisam confiar na presença dinâmica do Senhor Vivo da história. Pois é ele que guiará seu povo em todas as eras, a fim de que desenvolva sua vida eclesiástica de maneira que obdeça às instruções por ele dadas na Escritura e reflita os bons elementos de sua cultura local.
c. A liberdade da igreja
se cada igreja deseja desenvolver-se criativamente de modo que se encontre e expresse a si mesma, é preciso que ela seja livre para fazê-lo. Esse é um direito inalienável que ela tem pois toda igreja é igreja de Deus. Unida a Cristo ela é uma morada de Deus através de seu Espírito (Ef 2:22). Algumas missões e missionários têm demorado a reconhecer isso, e em a eitar suas implicações na direção de formas autóctones e de um ministério exrercido por cada membro. Essa é uma das muitas causas que têm levado à formação de Igrejas Independentes, notadamente na África, as quais procuram novas formas de auto-expressão em termos de cultura local.
Embora líderes de igrejas locais também tenham algumas vezes impedido o desenvolviemnto autóctone, a culpa maior se encontra em outra parte. Não seria justo generalizar. A situação sempre foi diversificada. Em gerações mais antigas houve missões que nunca manifestaram um espírito de domiação. Neste século têm surgido algumas igrejas que nunca foram submetidas a controle missionário, gozando de autonomia desde o início. Em outros casos, as missões têm desistido inteiramente do poder que exerciam, de modo que algumas igrejas fundadas por elas são agora plenamente autônomas, e muitas missões trabalham hoje em genuína parceria com as igrejas.
Mas isso não diz tudo. Outras igrejas ainda são quase completamente impedidas de desenvolverem sua própria identidade e programa por políticas ditadas de longe, pela introdução e continuação de tradições estrangeiras, pelo emprego de liderança estrangeira, por processos alienígenas de tomada de decisão e, especialmente, pela manipulação do dinheiro. Os que mantêm tal controle podem ainda estar genuinamente inconscientes da forma pela qual seus atos são considerados e experimentados no ouro lado. Podem ser considerados pelas igrejas em questão como tirania. O fato de que isso não é proposital, nem mesmo percebido, ilustra perfeitamente como todos nós (quer saibamo-lo ou não) nos envolvemos na cultura que fez de nós o que somos. Opomo-nos resolutamente a essa “estrangeirice”, onde quer que exista, como sério obstáculo à maturidade e missão, e como forma de dissipar o Espírito Santo de Deus.
Foi como um protesto contra a continuidade do controle estrangeiro que, alguns anos atás, foi feito um apelo para que se retirassem todos os missionários dos campos de missão. Neste debate, alguns de nós procuram evitar a palavra “moratória”, porque ela se tornou um termo emotivo e algumas vezes revela um ressentimento contra o próprio conceito de “missionário”. Entretanto, há outros que desejam reter a palavra a fim de enfatizar a verdade que ela expressa. Apra nós, ela significa não uma rejeição de dinheiro e pessoal missionário em si mesmos, mas só de seu mau uso, que sufoca a iniciativa local. Todos nós concordamos com a declaração do Pacto de Lausanne de que “uma redução do número de missionários estrangeiros e de verba... pode às vezes ser necessária para ensejar o crescimento da igreja nacional na área da autoconfiança...” (§9º).
d. A missão e as estruturas de poder
O que acabamos de escrever faz parte de um problema muito mais amplo, que não podemos ignorar. O mundo contemporâneo não consiste em sociedades atomizadas e isoladas mas sim num sistema global inter-relacionado de macroestruturas econômicas, políticas tecnológicas e ideológicas que sem dúvida alguma resulta em muita exploração e opressão.
O que isso tem a ver com a missão? E por que levantamos essa questão aqui? Em parte porque se trata do contexto dentro do qual o evangelho deve ser pregado a todas as nações hoje. Em parte também porque quase todos nós ou pertencemos ao Terceiro Mundo, ou vivemos e trabalhamos lá, ou já o fizemos antes, ou ainda porque já visitamos alguns países do Terceiro Mundo. Vimos com nossos próprios olhos a pobreza das massas, sentimos com elas e por elas, e temos consciência de que sua situação se deve em parte a um sistema econômico controlad, na maior parte, pelos países do Atlântico Norte (embora outros agora estejam envolvidos também). Aqueles dentre nós que são cidadãos da Amédica do Norte ou da Europa não devem evitar um certo em baraço ou constrangimento em virtude da opressão que nossos países, em graus diversos têm desenvolvido. Naturalmente sabemos que hoje há opressão em muitos países, muitas vezes com grande sacrifício pessoal. Contudo, é preciso confessar que alguns missionários refletem em si mesmos uma atitude neocolonial e, inclusive, a defendem, juntamente com os postos avançados da força e da exploração ocidentais, tal como na África do Sul.
Sendo assim, o que deveríamos fazer? A única resposta honesta é dizer que não sabemos. A crítica de gabinete cheira a hipocrisia. Não temos soluções prontas a oferecer para um problema mundial como esse. Na verdade, sentimos que nós mesmos somos viítimas do sistema. E, no entanto, somos parte dele. De maneira que só podemos fazer alguns comentários.
Primeiro, o próprio Jesus se identificava constantemente com os pobres e os fracos. Aceitamos a obrigação de seguir suas pegadas nesse assunto, como em todos os demais. Pelo menos, através do amor que ora e dá, pretendemos fortalecer nossa solidariedade para com eles.
Porém, o que Jesus fez foi mais que uma obra de auto-identificação. Em seu ensinamento, bem como no dos apóstolos, o corolário das boas novas aos oprimidos foi uma palavra de juízo contra o opressor (p.ex. Lc 6:24-26; Tg 5:1-6). Confessamos que, em situações econômicas complexas não é fácil identificar os opressores, a fim de denunciá-los, sem cair numa retórica estridente que não leva a lugar algum. Não obstante, concordamos em que há ocasiões em que nosso dever de cristãos é falar, de alto e bom som, contra a injustiça, em nome do Senhor que é o Deus da justiça tanto quanto da justificação. Nele procuraremos a coragem e sabedoria para agirmos assim.
Terceiro, esta Consulota expressou sua preocupação sobre o sincretismo nas igrejas do Terceiro Mundo. Mas não nos esquecemos de que as igrejas ocidentais caem no mesmo pecado. De fato, a forma mais insidiosa de sincretismo no mundo de hoje talvez seja a tentação de mesclar um evangelho privatizado de perdão pessoal com uma atitude mundana (ou mesmo demoníaca) para com a riqueza e o poder. Não estamos nós mesmos isentos de culpa nesse assunto. Mas desejamos ser cristãos integrados, para os quais Jesus seja realmente Senhor de tudo. De maneira que nós, que pertencemos ao Ocidente, ou somos oriundos dele, precisamos examinar a nós mesmos e procurar nos libertar do sincretismo ao estilo ocidental. Concordamos que: “A salvação que afirmamos usufruir deve produzir em nós uma transformação total, em termos de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta” (Pacto de Lausanne, §5º).
e. O risco do provincianismo
Salientamos que é preciso deixar a igreja se naturalizar, e “celebrar, cantar e dançar” o evangelho em seu próprio meio cultural. Ao mesmo tempo, queremos alertar contra os riscos desse processo. Algumas igrejas em todos os seis continentes, vão além de uma grata e jubilosa descoberta de sua herança cultural local e se tornam jactanciosas e dogmáticas acerca dela (espécie de chauvinismo), ou chegam a absolutizá-la (forma de idolatria). Mais freqüentemente que ambos os extremos, entretanto, é o “provincianismo”, isto é, o recolhimento radical à sua própria cultura, de maneira que se separam do resto da igreja e do mundo em geral. Essa é uma postura comum nas igrejas ocidentais, bem como no Terceiro Mundo. Ela nega o Deus da criação e da redenção. É como proclamar nossa própria liberdade, quando estamos caindo em outro tipo de servidão. Chamamos a atenção para as três razões principais por que deveríamos evitar semelhante atitude.
Primeiro, cada igreja é parte da igreja universal. O povo de Deus, através de sua graça, forma uma única comunidade multi-racial, multi-nacional e multi-cultural. Essa comunidade é a nova criação de Deus, sua nova humanidade em que Cristo aboliu todas as barreiras (ver Ef 2 e 3). Não há, portanto, lugar para o racismo na sociedade cristã, ou para o tribalismo, quer seja na forma africana, quer seja na forma das classes sociais européias, ou no sistema de castas indiano. Apesar das falhas da igreja, essa visão de uma comunidade supra-étnica do amor não é um ideal romântico, mas um mandamento do Senhor. Por isso, enquanto nos regozijamos em nossa herança cultural e no desenvolvimento de nossas próprias formas autônomas, devemos nos lembrar de que nossa identidade primária como cristãos não está em nossa cultura particular, mas no único Senhor e em seu único corpo (Ef 4:3-6).
Segundo, cada igreja adora o Deus vivo da diversidade cultural. Se agradecemos a ele por nossa herança cultural, devemos fazê-lo em prol das outras também. Nossa igreja nunca deveria se prender tanto à sua cultura, de maneira que os visitantes de outra cultura não se sentissem bem-vindos. Na verdade, cremos que seria enriquecedor para os cristãos se tivessem a oportunidade de desenvolver uma existência bicultural ou mesmo multicultural, como o apóstolo Paulo, que era ao mesmo tempo um hebreu dos hebreus, mestre da língua grega e cidadão romano.
Terceiro, toda igreja deveria participar de um companheirismo “no tocante a dar e receber” (Fp 4:15). Nenhuma igreja é, ou deveria ser, auto-suficiente. De maneira que todas as igrejas desenvolveriam entre si relações de oração, companheirismo, intercâmbio de ministério e cooperação. Visto que partilhamos as mesmas verdades centrais (incluindo o senhorio supremo de Cristo, a  autoridade da Escritura, a necessidade de conversão, confiança no poder do Espírito Santo, e as obrigações de santidade e testemunho), deveríamos procurar a comunhão de forma decidida e aberta,e não timidamente. Deveríamos também partilhar nossos dons e ministérios espirituais, nosso conhecimento, nossas habilidades, experiências e recursos financeiros. O mesmo princípio se aplica às culturas. Uma igreja necessita ser livre para rejeitar formas culturais alienígenas e desenvolver formas próprias. Também precisa ser livre para receber de outras culturas. Nisso consiste a maturidade.
Um exemplo disso diz respeito à teologia. Testemunhas transculturais não devem tentar impor uma tradições teológica já pronta à igreja em que servem, seja através do ensino pessoal, seja através de literatura ou do controle de currículos dos seminários e escolas bíblicas. Pois toda a tradição teológica tanto contém elementos biblicamente questionáveis e eclesiasticamente divisionistas, como omite elementos que, embora não tenham conseqüência no país de origem, podem ser de grande importância em outros contextos. Ao mesmo tempo, embora os missionários não devam impor sua própria tradição a outros, tampouco devem negar-lhes acesso a ela (na forma de livros, confissões, catecismo, liturgias e hinos), uma vez que, sem dúvida, ela representa uma rica herança de fé. Além disso, embora não se deva exportar as controvérsias teológicas das velhas igrejas para as novas, uma compreensão dos problemas e da obra do Espírito Santo na história da doutrina cristã serviria para protegê-las contra a repetição inútil das mesmas lutas.
Assim, deveríamos procurar com igual cuidado, evitar tanto o imperialismo quanto o provincianismo teológicos. A teologia de uma igreja deveria ser desenvolvida pela comunidade da fé a partir da Escritura, em interação com outras teologias do passado e o presente e com a cultura local e suas necessidades.
 
f. O risco do sincretismo
Assim que a igreja começa a expressar sua vida em formas culturais locais, é logo obrigada a enfrentar o problema dos elementos culturais que são maus ou padecem de más associações. Como a igreja deveria reagir a isso? Elementos que são intrinsecamente falsos ou maus, inegavelmente não podem ser assimilados ao Cristianismo sem cair no sincretismo. Esse é um rico de todas as igrejas em todas as culturas. Se o mal, entretanto, estiver somente na associação, julgamos correto “batizá-lo” em Cristo. É o princípio em que William Booth operou, quando adaptou letras cristãs a músicas populares, indagando por que é que o diabo everia ficar com as melhores canções. Assim é que, agora, muitas igrejas africanas usam tambores para chamar as pessoas ao culto, embora antes fossem inaceitáveis por sua associação a danças guerreiras e ritos mediúnicos.
Esse princípio, contudo, levanta problemas. Numa reação contra a presença estrangeira, pode ocorrer um flerte inconveniente com o elemento demoníaco da cultura local. Assim a igreja, sendo antes e acima de tudo serva de Jesus Cristo, deve aprender a examinar toda cultura, seja estrangeira ou local, à luz do senhorio de Cristo e da revelação de Deus. Quais as diretrizes, portanto, que levam uma igreja a aceitar ou rejeitar traços culturais no processo de contextualização? Que faz ela para impedir ou detectar e eliminar a heresia (ensino falso) e o sincretismo (a incorporação de coisas prejudiciais da velha maneira de vida)? Que faz ela para se proteger da ameaça de se tornar uma “igreja do povo”, em que a igreja e a sociedade são virtualmente sinônimos?
Um dos modelos qu estudamos é o da igreja de Bali, na Indonésia, que agora tem cerca de 40 anos. Sua experiência forneceu as seguintes orientações:
Inicialmente a comunidade dos crentes examinou as Escrituras e aprendeu com elas muitas verdades bíblicas importantes. Observaram então que outras igrejas (p.ex. ao redor do mediterrâneo) usavm a arquitetura para simbolizar a verdade cristã. Isso foi imporante porque os balineses têm uma acentuada inclinação para o “visual”, e estimam muito os símbolos. Assim, decidiram expressar sua afirmação de fé na Trindade num teto de três fileiras, estilo balinês, para suas igrejas. Inicialmente, o símbolo foi objeto de estudo do conselho de anciãos, o qual, tendo considerado tanto fatores bíblicos como culturais, recomendou-o às congregações locais.
A detecção e eliminação da heresia seguiu um padrão semelhante. Quando os crentes suspeitavam de um erro na vida ou no ensino, comunicavam-no a um ancião, que o encaminhava por sua vez, ao Conselho. Tendo examinado a matéria, este passava suas recomendações às igrejas locais, que tinham a palavra final.
Qual foi a mais importante salvaguarda da igreja? A essa pergunta a resposta foi: “Cremos que Jesus Cristo é Senhor de todas as potências”. Pregando seu poder, o mesmo ontem, hoje e para sempre, insistindo em todas as ocasiões na natureza normativa das Escrituras, confiando aos anciãos a obrigação de refletir sobre a Escritura e a cultura, rompendo todas as barreiras que dificultam a comunhão, e incluindo nas estruturas da igreja o catecismo, as formas artísticas, o drama, etc., como constantes lembretes da exaltada posição de Jesus Cristo, sua igreja tem sido preservada em verdade e santidade.
Às vezes, em diferentes partes do mundo, um elemento cultural ao ser adotado pode perturbar profundamente consciências supersensíveis, especialmente de novos convertitos. É esse o problema do “irmão mais fraco”, sobre o qual Paulo escreve em conexão com carnes oferecidas aos ídolos. Uma vez que os ídolos nada eram, o próprio Paulo tinha liberdade de consciência para comer tais carnes. Mas, por amor aos cristãos “mais fracos”, dotados de uma consciência demasiadamente sensível, que se sentiriam ofentidos vendo-o comer delas, absteve-se de fazê-lo, pelo menos nas situações específicas em que tal ofensa pudesse de fato ocorrer. Esse princípio pode ser aplicado ainda hoje. A Escritura leva a consciência a sério e recomenda que não a violentemos. É preciso educá-la para que ela fique “forte”, mas enquanto permanece “fraca” é preciso respeitá-la. Uma consciência forte nos tornará livres, mas o amor limita a liberdade.
 
g. A influência da igreja sobre a cultura
Deploramos o pessimismo que leva alguns cristãos a reprovar o engajamento cultural ativo no mundo, bem como o derrotismo que persuade outros de que nenhum bem poderiam fazer nestas atividades, e que, portanto, deveriam esperar imóveis que Cristo conserte as coisas quando voltar. Muitos são os exemplos históricos, tirados de diferentes épocas e países, que poderiam ser dados da poderosa influência que, coma ajuda de Deus, a igreja tem exercido numa cultura predominante, purificando-a, reivindicando-a e embelezando-a para Cristo. Embora todas as tentativas até aqui feitas nesse sentido tenham tido seus defeitos, isso não prova que estes empreendimentos não deveriam ter sido realizados.
Preferimos, entretanto, fundamentar a responsabilidade cultural da igreja na Escritura e não na história. Lembremo-nos de que nossos semelhantes foram feitos à imagem de Deus, e que nos foi recomendado honrá-los, amá-los e servir a eles em todas as esferas da vida. A esse argumento da criação de Deus acrescentamos outro: o de seu reino, que irrompeu no mundo através de Jesus Cristo. Toda autoridade pertence a Cristo. Ele é Senhor tanto do universo como da igreja. E nos enviou ao mundo para sermos sal e luz. Como sua nova comunidade, ele espera que permeemos a sociedade.
Assim, nosso papel é desafiar o mal e afirmar o bem; acolher e procurar promover tudo o que é sadio e enriquecedor na arte, na ciência, na tecnologia, na agricultura, na indústria, na educação, no desenvolvimento comunitário e bem-estar social; denunciar a injustiça e apoiar os impotentes e oprimidos; espalhar o evangelho de Jesus Cristo, que é a força mais liberalizante e humanizante do mundo, e empenharmo-nos ativamente nas boas obras do amor. Embora, tanto nas atividades sócio-culturais como na evangelização, os resultados devam ficar com Deus, confiamos em que ele abençoará nossos esforços e fará uso deles para desenvolver em nossa comunidade uma nova consciência do que é “verdadeiro, digno, justo, puro, amável e honesto” (Fp 4:8, BLH). Naturalmente, a igreja não pode impor padrões cristãos a uma sociedade que se mostre indisposta contra eles, mas pode recomendá-los tanto pelo argumento como pelo exemplo. Tudo isso trará glória a Deus e, para nossos semelhantes, que ele criou e ama, uma experiência cada vez maior de uma vida realmente humana. Como o Pacto de Lausanne colocou a questão: “As igrejas devem se empenhar em enriquecer e transformar a cultura local, tudo para a glória de Deus” (§ 10).
Apesar disso, o otimismo ingênuo é tão tolo como o pessimismo total. Em lugar de ambos procuramos um sóbrio realismo cristão. Por um lado, Jesus Cristo reina; por outro, ainda não destruiu as forças do mal: elas ainda provocam alvoroço. Assim, em toda cultura os cristãos se acham numa situação de conflito e quase sempre de sofrimento. Somos chamados a lutar contra as forças cósmicas “desta época de escuridão” (Ef 6:12 BLH). E assim precisamos uns dos outros. É necessário que todos nós vistamos a armadura de Deus, especialmente a arma poderosa da oração da fé. Também lembramos as advertências de Cristo e seus apóstolos, segundo as quais antes do fim haverá uma explosão sem precedentes de perversidade e violência. Alguns eventos e processos no mundo contemporâneo indicam que o espírito do Anticristo, que está por vir, já se acha em aça, não só em países não-cristãos, mas também em nossa própria sociedade parcialmente cristianizada, e mesmo nas próprias igrejas. “Portanto, rejeitamos como sendo apenas um sonho orgulhoso e autoconfiante a idéia de que o homem possa algum dia construir uma utopia neste mundo” (Pacto de Lausanne, §15), considerando uma fantasia sem fundamento a idéia de que a sociedade venha a se tornar perfeita.
Ao invés disso, enquanto energicamente trabalhamos na terra, esperamos com jubilosa antecipação o retorno de Cristo, e os novos céus, bem como a nova terra, em que a justiça habitará. Pois então não só será transformada a cultura, à medida que as nações trouxerem sua glória à Nova Jerusalém (Ap 2:24-26), como será libertada toda a criação da presente servidão à futilidade, decadência e sofrimento, de maneira a poder participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8:18-25). Então, finalmente, todo joelho se dobrará diante de Cristo, e toda língua proclamará abertamente que ele é Senhor para a glória de Deus pai (Fp 2:9-11).
Tópicos para Discussão
1. Sua igreja local é “livre” para desenvolver sua própria identidade? Se não, que forças a estão impedindo? Veja a Seção 8 (a até d).
2. A Seção 8d tem algumas coisas duras a dizer somre “estruturas de poder”. Você concorda com elas? Se positivo, você pode fazer alguma coisa a respeito?
3. Tanto o “provincianismo” (8e) como o “sincretismo” (8f) são equívocos de uma igreja que tenta expressar sua identidade em formas culturais locais. Sua igreja está cometendo qualquer um dos dois erros? Que fazer para evitá-los sem repudiar a cultura local?
4. Deveria a igreja de seu país fazer algo mais para “transformar e enriquecer” sua cultura nacional? Em caso afirmativo, de que maneira?
9. Cultura, Ética Cristã e Estilo de Vida
Tendo considerado, na Seção 7, alguns dos fatores culturais na conversão cristã, finalmente chegamos à relação entre a cultura e o comportamento ético cristão. Pois a nova vida que Cristo concede a seu povo está destinada a trazer um novo estilo de vida.
a. Cristocentrismo e semelhança a Cristo
Um dos temas que tiveram presença constante em nossa Consulta foi o supremo Senhorio de Jesus Cristo. Ele é Senhor do universo e da igreja. Ele também é Senhor do crente individual. Sentimo-nos dominados pelo amor de Cristo. Ele nos prende por dentro e não nos deixa nenhuma saída. Por gozarmos de uma vida nova através de sua morte, não temos outr aalternativa (e nenhum desejo) senão viver para aquele que morreu por nós e depois ressuscitou (2Co 5:14,15). Devemos lealdade primeiramente a ele, e essa lealdade consiste em agradá-lo, viver uma vida digna dele e obedecer a ele. Isso implica a renúncia a todas as lealdades menos significativas. De maneira que não nos é permitido conformarmo-nos aos padrões deste mundo, isto é, a qualquer cultura dominante que deixe de honrar a Deus. Em lugar disso, o mandamento que temos é o de nos transformarmos em nossa conduta, guiados por mentes renovadas que percebam a vontade de Deus.
A vontade de Deus foi perfeitamente obedecida por jesus. Portanto, “a coisa mais impressionante em relação ao cristão deveria ser, não a sua cultura, mas sua semelhança com Cristo”. Como diz um texto de meados do segundo século, conhecido como Carta a Diogneto: “Os cristãos não se distinguem do resto da humanidade quer seja pelo país, pela fala ou pelos costumes... Eles seguem os costumes da terra no tocante à maneira de se vestir, hábitos alimentares e outros assntos da vida cotidiana, todavia a condição de cidadania que exibem é maravilhosa... Numa palavra, o que a alma é no corpo, os cristãos são no mundo.”
b. Padrões morais e práticas culturais
A cultura nunca é estática. Ela varia tanto de lugar para lugar como de tempo para tempo. E durante toda a longa história dxa igreja nos diversos países, o Cristianismo até certo ponto tem destruído a cultura, ten-na preservado e, no fim, criado uma nova cultura no lugar da velha. De modo que em toda parte os cristãos precisam pensar seriamente sobre como sua nova vida em Cristo deveria estar relacionada com a cultura contemporânea.
Nos trabalhos lidos preliminarmente em nossa Consulta, dois modelos um tanto quanto semelhantes foram colocados diante de nós. Sugeriu-se que há diversas categorias de costumes que precisam ser distnguidas. A primeira inclui as práticas que o convertido deverá abandonar imediatamente como sendo inteiramente incompatíveis com o evangelho cristão (p.ex., a idolatria, a possessão de escravos, bruxaria e feitiçaria, caçar cabeças, lutas sangrentas, prostotituição ritual e todas as discriminações pessoais baseadas na raça, cor, classe ou casta). Uma segunda categoria poderia englobar costumes institucionalizados que seriam tolerados por algum tempo, mas que depois se esperaria desaparecessem gradualmente (p.e., sistemas de casta, escravidão e poligamia). Uma terceira categoria estaria relacionada com as tradições matrimoniais, especialmente com a questão da consanguinidade, sobre a qual as igrejas se dividem, enquanto que numa quarta categoria seriam colocadas as assim chamadas adiaphora, ou “assundos indiferentes”, que idzem respeito só aos costumes e não à mora, e portanto podem ser preservados sem qualquer compromisso (p.ex., costumes alimentares e de higiene pessoal, formas de saudação pública ao sexo oposto, penteado e maneira de vestir, etc).
O segundo modelo que consideramos distingue os confrontos “diretos” e “indiretos” entre Cristo e a cultura, que correspondm aproximadamente à primeira e segunda categorias do outro modelo. Aplicado às Ilhas Fiji do século XIX, no caso que nos foi apresentado, pensou-se que haveria um “confronto direto” com práticas tão desumanas como canibalismo, o estrangulamento de viúvas, o infanticídio, o parricídio, e que se esperaria que os convertidos abandonassem tais práticas depois da conversão. O “confronto indireto” ocorreria, entretanto, quando a questão moral não fosse apresentada de forma bem nítida (p.ex., alguns costumes matrimoniais, ritos de iniciação, festivais e celebrações musicais envolvendo canções, danças e uso de instrumentos) ou quando ela só passasse a ser percebida depois que o convertido tivesse começado a aplicar sua fé na vida cristã prática. Algumas dessas práticas não precisaram ser descartadas, mas apenas purificadas de seus elementos impuros e investidas de significado cristão. Velhos costumes podem revestir-se de um novo simbolismo, velhas danças podem celebrar novas bênçãos, e velhas técnicas ou processos servir a novos propósitos. Para tomar emprestada uma expressão do Velho Testamento, espadas podem transformar-se em arados; e lanças em podadeiras.
Diz o Pacto de Lausanne: “O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre outr mas avalia todas elas segundo seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos qualquer que seja a cultura em questão” (§10). Queremos endossar esse ponto de vista, e salientar que mesmo na peresente era da relatividade os absolutos morais permanecem inalterados. De fato, as igrejas que estudam as Escrituras não deveriam achar difícil discernir o que pertence à categoria primeira do “Confronto direto”. Sob a liderança do Espírito Santo, os princípios bíblicos também hão de guiá-las em relação à categoria do “confronto indireto”. Um teste adicional proposto é indagar, no caso de determinada prática, se ela dignifica ou diminui a vida humana.
Perceber-se-á que nossos estudos focalizam principalmente as situações em que igrejas mais jovens são obrigadas a assumir uma postura moral contra certos males. Mas já sabemos que a igreja precisa fazer frente ao mal na cultura ocidental também. noOcidente do século XX, com frequência, existem exmplos mais sofisticados, mas não menos horríveis, dos males que existiam nas Ilhas Fiji no século XIX. Comparável ao canibalismo é a injustiça social, que “devora” o pobre. Comparável ao estrangulamento de viúvas, a opressão a que as mulheres são submetidas. Ao infanticídio, o abrto. Ao parricídio, a criminosa negligência com a velhice. Às guerras tribais, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais. E à prostituição ritual, a promiscuidade sexual. Ao considerar tal paralalelismo, é necessário lembrar tanto a culpa adicional das nações nominalmente cristãs, como o corajoso protesto cristão contra tais males e as trandes (podém incompletas) vitórias que até aqui foram conseguidas no sentido de mitigar tais males. O mal toma muitas formas, mas ele é universal e, onde quer que apareça os cristãos precisam enfrentá-lo e repudiá-lo.
c. O processo de mudança cultural
Não basta aos convertidos renunciar pessoalmente aos males de sua cultura; é preciso que a igreja inteira se empenhe na sua eliminaçã. Daía importância de indagar como as culturas mudam sob a influência do evangelho. Naturalmente, o mal e o demoníaco estão profundamente arraigados na maioria das culturas. Mesmo assim a Escritura clama por arrependimento e reforma a nível nacional, e a história registra numerosos casos de mudança cultural para melhor. De fato, em alguns casos a cultura não é tão resistente à mudança necessária como pode parecer. Entretanto, é preciso muito cuidado ao procurar iniciá-la.
Primeiro, “as pessoas mudam como e quando querem mudar”. Isso parece axiomático.  Mais ainda: só querem mudar quando percebem os benefícios que advirão da mudança. É preciso que tais benefícios sejam cuidadosamente sustentados e pacientemente demonstrados, quer estejam os cristãos advogando, em país ainda em desenvolvimento os benefícios da alfabetização ou o valor da água tratada, quer estejam advogando em país ocidental desenvolvido, a importância de um casamento e uma vida familiar estáveis.
Segundo, as testemunhas transculturais no Terceiro Mundo precisam respeitar muito os mecanismos intrínsecos à mudança social em geral, bem como “as corretas medidas de inovação” em cada cultura particular.
Terceiro, é importante lembrar que todos os costumes, geralmente, desempenham fuções importantes dentro da cultura, e que mesmo práticas socialmente indesejáveis podem desempenhar funções “construtivas”. Sendo assim, um costume nunca deveria ser abolido sem antes ser discernida sua função e um outro costume colocado em seu lugar, capaz de exercer a mesma função. Por exemplo, pode ser justo desejar abolir alguns ritos iniciatórios associados à circuncisão de adolescentes, bem como algumas formas de educação sexual que a acompanham. Com isso não se quer negar o valor dos processos de iniciação; entretanto, é preciso muito cuidado para que se possam prover substitutivos adequados para os ritos e formas de iniciação que a consciência cristã desejaria ver abolidos.
Quarto, é essencial reconhecer que algumas práticas culturais têm uma base teológica. Neste caso, a cultura só muda se a teologia também mudar. Assim, se se matam viúvas para seus maridos não entrarem no outro mundo sem ter quem lhes preste assistência, ou sese matam velhos antes que a senilidade tome conta deles, a fim de que no outro mundo sejam bastante fortes para lutar e caçar, então a eliminação deles por ser fundada numa falsa escatologia, só será abandonada quando uma alternativa melhor, a esperança cristã, for aceita em seu lugar.
Tópicos para Discussão
1. Pode a “semelhança de Cristo” ser reconhecida em toda a cultura? Quais são seus ingredientes?
2. Em sua própria cultura, a que você esperaria que o novo convertido renunciasse imediatamente?
3. Considere algum “costume institucionalizado” de seu país que os cristãos esperam “venha a desaparecer gradualmente” (p.ex., poligamia, o sistema de castas, o divórcio fácil ou alguma forma de opressão). Quais as medidas de ação que os cristãos deveriam tomar para que haja mudança?
Conclusão
Nossa Consulta não nos deixou nenhuma dúvida quanto à penetrante importância da cultura. A redação e leitura da Bíblia, a apresentação do evangelho, a conversão, a igreja e a conduta – tudo isso é influenciado pela cultura. É essencial, portanto, que todas as igrejas contextualizaem o evangelho a fim de partilharem-no eficazmente em sua própria cultura. Para essa tarefa de evangelizsação, todos nós conhecemos a nossa urgente necessidade do ministério do Espírito Santo. Ele é o Espírito da verdade, que pode ensinar a toda a igreja como relacionar-se coma cultura que a envolve. Ele é também o Espírito do amor, e o amor é a “linguagem que toda a cultura humana compreende”. Que o Senhor nos encha, pois, com seu Espírito! Então, falando a verdade em amor, cresceremos em Cristo, que é o cabeça, para a glória eterna de Deus (Ef 4:15).
Observação:  As citações anônimas que aparecem no relatório foram extraídas de vários trabalhos apresentados na Consulta.